Alex Ross, o crítico e o papel da crítica

por Camila Frésca 24/08/2011

Em passagem pelo Brasil para divulgar seu mais novo livro, "Escuta só: do clássico ao pop" (Companhia das Letras), o crítico de música Alex Ross deu palestras em São Paulo e no Rio de Janeiro. Fui ouvi-lo na Sala São Paulo, dia 4 deste mês, sem nenhuma informação prévia sobre o que ele iria tratar, e confesso que foi bem diferente do que eu imaginava – saí de lá surpresa e bastante satisfeita.

Ross é desde 1996 crítico da badalada revista The New Yorker, nos Estados Unidos. Antes, havia desempenhado a mesma função no jornal The New York Times. Mas seu nome ganhou fama internacional quando lançou "O resto é ruído" (The rest is noise), em 2007 – no Brasil também editado pela Cia. das Letras. O livro, que trata da música do século XX, virou best seller e chamou atenção pela forma inovadora na qual o autor passa da análise da música clássica para a popular, colocando ambas no mesmo plano e se pautando por critérios que não pretendem estabelecer graus de superioridade entre elas.


Alex Ross e seu livro "Escuta Só" [imagens: divulgação]

Sua palestra foi baseada no extenso ensaio “Chacona, lamento, walking blues: linhas de baixo da história da música”, um dos capítulos de "Escuta só". E confesso que foi daí que nasceu minha surpresa. Ao invés de ouvi-lo falar sobre o trabalho ou o papel do crítico no mundo atual, ou ainda quais são seus parâmetros para fazer uma crítica, acompanhei uma palestra erudita e ao mesmo tempo acessível sobre a persistência de algumas linhas descendentes de baixo presentes na música (clássica e popular) através dos tempos. Ross partiu do ostinato de uma chacona do século XVI e mostrou como essa figura descendente, espécie de lamento, esteve presente nos mais diferentes tipos de música através dos tempos. Para ilustrar sua tese, mostrou trechos de obras de Monteverdi, Beethoven e Bach entremeados com canções dos Beatles, Bob Dylan e Ray Charles, entre muitos outros.

O que se viu foi a palestra de um especialista, um ilustrado no assunto, que combinou rigor científico com uma linguagem acessível, preocupada em comunicar e se fazer entender. Ross fala sobre transformações e continuidades, fazendo relações amplas com profundidade e embasamento, e nos transmite esse conhecimento elaborado de uma forma simples e objetiva. Ou seja, nada a ver com uma fala que explicasse “o que faz” ou “como ser um crítico” – de um jeito pedante ou superior, como às vezes se vê por aí. Mas, ao mesmo tempo, ficou claro de que instrumentos ele se utiliza para fazer seu trabalho.

Maiores informações sobre como Alex Ross concebe a crítica musical encontrei no prefácio de seu novo livro – “Ao escrever sobre música, tento até certo ponto desmistificar a arte, desfazer a prestidigitação, ao mesmo tempo que respeito a complexidade humana ilimitada que lhe dá vida” – e numa entrevista concedida a João Luiz Sampaio: “Definir para que serve um crítico é uma questão de filosofia pessoal. Para mim, a crítica é uma mistura de avaliação e explicação. Em parte do tempo, estou ouvindo uma apresentação e passando adiante meus julgamentos sobre o que escuto – essa é a definição clássica. Mas também estou tratando de uma cena musical mais ampla e tentando sugerir os significados da música. Nesse sentido, o papel do crítico mudou muito nos últimos 50 ou 60 anos. Nos Estados Unidos, a cobertura dos clássicos praticamente desapareceu das revistas de interesse geral. Sou um dos poucos escrevendo regularmente em uma revista de âmbito nacional. E acredito que críticos nessa posição têm uma responsabilidade extra: não basta apenas oferecer julgamentos objetivos sobre a cena musical mas também servir como a face da própria música clássica, explicá-la a um público mais amplo. Alguns críticos, estou certo, discordam radicalmente dessa visão, eles não querem ser advogados de nada. Mas eu gosto desse papel, ele me dá um certo senso de utilidade social”.