"Angelus": música de câmara para o terceiro milênio

Embora a morte do CD já tenha sido decretada inúmeras vezes, ainda há quem se obstine em gravar neste formato. Dentro do saudável cenário de reestruturação do mercado fonográfico, que vem erodindo o monopólio das “majors”, o barateamento das tecnologias de ponta viabiliza projetos autorais – como aqueles que são contemplados pelo Proac, o Programa de Ação Cultural do Estado de São Paulo.

Fiquei especialmente tocado por um beneficiário do Proac 2012, que acabou de se materializar aqui em casa. Trata-se de Angelus, generosa compilação de música de câmara de André Mehmari.

Tenho bastante carinho pelo quinteto para piano e cordas que dá título ao álbum. Lembro-me que estava com o André na Sala São Paulo, em 2004, assistindo a um inesquecível recital do duo pianístico de Nelson Freire e Martha Argerich, quando um bate papo com o casal Betina Stegmann (violino) e Marcelo Jaffé (viola) deu origem a essa obra.

Em 2005, Angelus virou encomenda do Quarteto de Cordas da Cidade de São Paulo para o 70º aniversário do grupo, e agora chega ao disco com os mesmos músicos que o estrearam, oito anos atrás: André, Betina, Marcelo, mais Nelson Rios (violino) e Robert Suetholz (violoncelo).

Como bem lembrava o saudoso Almeida Prado, o risco com encomendas é de que a primeira audição mundial se torne também a última... Desde a estreia, eu achava que seria uma pena se isso acontecesse com Angelus, e hoje, ouvindo o disco, ainda considero o quinteto uma das joias da música de câmara brasileira no recém-iniciado milênio.

Se eu tivesse que rotular a música de Mehmari, diria que ele pratica uma espécie de nacionalismo neoclássico. Mas o problema com esses rótulos é que, para serem compreendidos, eles requerem uma bula a acompanhá-los.

Primeiro, sobre o neoclassicismo. Embora Mehmari seja confessadamente influenciado por Stravinsky, empregando um tipo de humor que remete à poética do compositor russo, falar em neoclassicismo evoca não apenas a referenciais setecentistas, e economia de meios, mas também certa contenção ou distanciamento emocional da obra que não se verificam com muita frequência na produção de Mehmari. Seu gosto pelos afetos parecem dialogar mais com a eloquência do Barroco do que com o estilo galante do Classicismo. Nesse sentido, seu “neoclassicismo” seria parente da sentimentalidade de Villa-Lobos nas Bachianas Brasileiras.

Agora, sobre o nacionalismo. Para muitos compositores “acadêmicos” brasileiros, o nacionalismo é uma equação: os temas “nacionais” (de preferência, “nordestinos” e “folclóricos”) devem ser aplicados a um molde pré-fabricado.

Mehmari jamais praticou esse tipo de nacionalismo de laboratório. Assim como Villa-Lobos e Radamés Gnattali, seu fazer musical transcende as fronteiras entre o popular e o erudito, e reflete a “mescla” desses registros porque ele já os traz misturados dentro de si. A ironia é que, sem precisar rezar por cartilha nacionalista, nem preconizar um “verde-amarelismo” xenófobo e arcaico, sua música acaba soando muito mais “nacional” do que a de tantos epígonos cinzentos de Mário de Andrade.

Angelus talvez funcione como uma espécie de suma poética mehmariana. Pois estão lá a transparência das texturas, o apuro formal, a felicidade melódica e o gestual improvisatório e “livre” da música popular. As citações, tão a gosto do compositor, também se fazem presentes: Brahms e Mozart são conjurados na construção de um discurso que tangencia os graus mais elevados da espiritualidade musical.

Generoso, o disco traz muito mais coisa – de uma engenhosa A vida das moscas, para o superlativo quinteto de clarinetes Sujeito a guincho, a uma lúdica Pequena suíte popular brasileira. Porém, aqui em casa, misteriosamente, meu aparelho de som teima em não ir além das cinco primeiras faixas que constituem o quinteto Angelus.

[O CD Ângelus, de André Mehmari, está disponível na Loja Clássicos]

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