Arvo Pärt, Gidon Kremer e o heroísmo “à la russe”

por João Marcos Coelho 15/12/2010

Juiz: Qual é sua profissão?
Brodsky: Poeta. Poeta e tradutor.
Juiz: E quem te disse que você é poeta? Quem lhe deu este direito?
Brodsky: Ninguém. (em tom não agressivo) Quem me deu o direito de pertencer à raça humana?
Juiz: E você estudou para isso?
Brodsky: Para quê?
Juiz: Para tornar-se um poeta. Você tentou freqüentar uma escola onde se treinam poetas? 
Brodsky: Não acho que isso seja resultado de educação.
Juiz: E é do que, então?
Brodsky: Creio que é .... de Deus.*

Situações absurdamente injustas como esta, vivida pelo genial poeta russo Josef Brodsky em 1964 diante de um “tribunal” soviético que o condenou a cinco anos de trabalhos forçados na Sibéria, sem dúvida lustram a biografia de qualquer um. Sua amiga, a notável poeta Anna Akhmátova, comentou na saída do tribunal mais ou menos o seguinte: “Que magnífica biografia estão construindo para ele; melhor do que qualquer encomenda”.

O perigo é quando julgamentos fajutos como este podem levar à criação de “heróis” que nada têm, em sua biografia, a ver com justiça ou supertalentos. O compositor estoniano Arvo Pärt e o violinista letão Gidon Kremer – dois músicos conhecidíssimos e de incontestável competência e talento – acabam de dedicar seus CDs recém-lançados ao ex-biliardário russo Mikhail Khodorkovsky, preso há sete anos na Rússia por fraudes fiscais por Vladimir Putin.

Com a habilidade de ganhar dinheiro com incrível rapidez, Khodorkovsky enricou na fase pós-perestróika, nos anos 90, onde valia tudo na Rússia, e se transformou rapidamente num dos barões do petróleo, com sua gigantesca Yuka, quase do tamanho de uma Petrobrás. Nosso “herói” bateu de frente com Putin ao exigir maior transparência e menos corrupção nos negócios russos. Seus pedidos visavam apenas a fazer suas empresas crescerem a taxas mais altas, sem ter de pagar propinas de todo tipo.

Putin, verdadeiramente “putin” com o procedimento do empresário, simulou um processo e julgamento tão sumários e absurdos quanto os dos tempos estalinistas na URSS. E transformou o cara num herói da liberdade e da democracia. Da prisão, ou gulag, na Sibéria – a mesma onde ficaram nomes ilustres como o físico Sakharov e o escritor Soljenítsin décadas atrás –, Khodorkovsky passou a escrever e contrabandear artigos para o Ocidente clamando por democracia, transparência e direitos humanos.

O ex-biliardário montou uma estratégia de marketing pessoal primorosa, graças à “colaboração” inestimável de Putin e das autoridades russas. A ponto de comover Pärt (que lhe dedica o recentíssimo CD da ECM com a primeira gravação mundial de sua quarta sinfonia) e Kremer (que lhe faz uma declaração de amor eterno em seu CD “De profundis”, recém-lançado pelo selo norte-americano Nonesuch).

Estes são apenas dois exemplos – os mais recentes – de músicos que se metem em política sem conhecer a situação de fato e sem a menor condição de distinguir o mocinho do bandido. Sabem por que eles dedicaram seus CDs a Khodorkovsky? Porque ele vai ser novamente julgado daqui a algumas semanas – e provavelmente será de novo condenado a outra temporada forçada no gulag da Sibéria.

Por aqui os músicos trocam de camisa política como trocam de camiseta – sem o menor compromisso ideológico – desde que seus projetos artísticos se viabilizem. Um pouco mais de sinceridade e consciência com certeza valeriam a pena. E deixariam suas biografias mais decentes.

* Este espantoso diálogo é citado num artigo curto na seção “The Talk of the Town” da revista “New Yorker” com data de capa de 20 e 27 de dezembro/2010, escrito por seu editor, o ótimo jornalista David Remnick. Dele, a Companhia das Letras já lançou no Brasil a coletânea de artigos e reportagens “Dentro da Floresta”, em 2006, e há poucas semanas “A Ponte”, biografia de Barack Obama. Remnick pergunta-se se desta vez Medvedev-Robin irá anistiar Khodorkovsky e liberá-lo para emigrar. Ou se Putin-Batman o condenará a outros 14 anos no gulag. Façam suas apostas.