Através do espelho, ou o que Isolda encontrou por lá

por Leonardo Martinelli 23/05/2011

Desde o início dos tempos que o Amazonas é terra para os poucos e fortes, e se à margem da imponente floresta Manaus projeta seus primeiros arranha-céus, a contemporaneidade em nada alterou as leis básicas de sobrevivência na selva, seja ela vegetal ou de pedra.

Mimetizando este ambiente de beleza e perigo, o Festival Amazonas de Ópera (FAO) entra na reta final de sua celebrada 15ª edição com a montagem de um dos mais aclamados títulos de toda história da ópera, isto é, o drama medieval sobre a impossibilidade e os paradoxos do amor que Richard Wagner materializou na partitura de Tristão e Isolda.

Botar em pé um festival de ópera é, por si, uma empreitada colossal: o ritmo vertiginoso dos ensaios, a montagem e desmontagem de cenários e o confinamento em hotéis numa cidade de clima extremo são alguns dos desafios daqueles que fazem do evento seu cotidiano nesses meses de “inverno amazônico”.


Cena da ópera Tristão e Isolda, no 15º FAO.

Entretanto, percalços adicionais foram enfrentados para a produção deste Tristão: após problemas de ordem diversas, o diretor André Heller-Lopes foi chamado com urgência para conceber do zero toda uma nova montagem, fato que consequentemente também colocou em estado de emergência toda uma cadeia de produção. O ponto de tensão máxima veio com a enfermidade da soprano Eliane Coelho, que após mais de um mês convivendo com a alta umidade e o mofo tão peculiar de alguns lugares igualmente peculiares de Manaus, foi atacada por uma crise de bronquite às vésperas da última récita.

Desafios postos, desafios enfrentados, e o que se presenciou no último domingo foi um dos momentos mais emocionantes da história do evento.

Tal como a personagem Alice de Lewis Carroll em seu romance Through the looking-glass and what Alice found there, Eliane Coelho, e sua imagem incessantemente refletida por enorme espelho, enfrentou com heroísmo toda uma sorte de dificuldades previstas e imprevistas nesta Isolda que, por fim, lhe garante de forma inequívoca a majestade neste parnassum tropical.

Se no primeiro ato foram notáveis os efeitos da enfermidade em sua voz – sem que, no entanto, isto de fato viesse a comprometer o espetáculo –, a soprano superou seus limites físicos para nos atos seguintes propiciar momentos de extrema beleza musical e estoicismo artístico: o famoso e longo dueto com Tristão no ato intermediário e a cena final da ópera podem, sem dúvida, serem colocados como dois dos momentos mais especiais testemunhados no palco do Teatro Amazonas.

Da mesma forma aplaude-se o trabalho do tenor John Charles Pierce como Tristão, que com seu timbre encorpado e afinação segura propiciou também grande comoção na cena de delírio e morte de seu personagem no terceiro ato da ópera.

Se os protagonistas desta montagem são caracterizados pela larga experiência que acumularam em suas carreiras internacionais, no elenco de apoio contou-se com a participação inspirada e competente de jovens talentos brasileiros, tais como Leonardo Neiva (Kurwenal) e Andreia Souza (Brangäne). Com boa atuação musical, excelente projeção vocal e movimentação cênica, o competente trabalho da dupla foi fundamental para o sucesso desta montagem. A dever mesmo ficou apenas o baixo Kevin Maynor (Rei Marke), com uma voz dinamicamente sem potência e destimbrada do restante do elenco.

Com a direção de Luiz Fernando Malheiro à frente da Amazonas Filarmônica, com Tristão e Isolda o FAO confirma sua vocação para a ousadia. Notoriamente comprometida, a orquestra enfrentou com competência e momentos de franca inspiração a complexa partitura desta ópera, com destaque para a famosa abertura e os líricos solos do corne inglês de Sebastian Valejo, espectral melodia que precede a morte de Tristão. Com toda uma experiência de um Ciclo do Anel na bagagem, Malheiro prova-se à vontade com as artimanhas cromáticas de Wagner, e a possibilidade de um Lulu – a famosa ópera moderna de Alban Berg – no ano que vem confirma-se como algo não apenas possível, mas também promissor (tal como dito pelo maestro em entrevista à Revista CONCERTO).

Se a parte musical do Tristão e Isolda de Manaus causou fascinação, não há como negar que ela foi ressaltada pela direção cênica que André Heller-Lopes imprimiu no palco do Teatro Amazonas, que contou com os interessantes cenários de Carlos Pedreanez e Flávio Lima, com o bom trabalho de iluminação de Fabio Retti (especialmente inspirado ao longo do terceiro ato) e com os figurinos apenas funcionais de Marcelo Marques.

Numa ópera cujo enredo muitas vezes não chega a ser visualmente dinâmico, Heller-Lopes acertou ao apostar numa ambiência que valorizasse os gestos das personagens, duplicados por suas imagens refletidas no espelho-monolito que ocupou quase todo o cenário ao longo dos atos. Se musicalmente a partitura da ópera está cheia de passagens pirotécnicas, cenicamente o diretor soube também criar seus momentos de virtuosismo. Difícil não se comover com a passagem entre a abertura orquestral e a primeira cena do ato I – na qual Isolda duplamente refletida por sua imagem e pela de Brangäne, que se encontra atrás do espelho translúcido (sic), surge de uma cortina de fumaça virtual – ou com a morte da protagonista caminhando por um túnel de luz. Todo virtuose é fascinado pelo perigo, e na cena de amor entre Tristão e Isolda no segundo ato enfrentou bem a tentação pelo pieguismo que a situação provoca.

Vários são os fatores para o sucesso do Tristão e Isolda de Manaus, que se construiu pela competência de seus agentes musicais e cênicos. E mais uma vez vem do Amazonas outra memorável montagem da cena lírica brasileira que o todo o restante do país mereceria conhecer.

O jornalista Leonardo Martinelli viajou a Manaus a convite da Secretaria de Cultura do Amazonas.