As aventuras de Alex Klein Bisneto

por Nelson Rubens Kunze 16/02/2011

A Fundação Osesp, Organização Social que administra a Sala São Paulo e a Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo, acaba de dar um banho de competência e profissionalismo com o processo de escolha e apresentação de sua nova regente titular, a maestrina norte-americana Marin Alsop. A partir de um comitê representativo e de uma diversidade de opiniões, a Fundação Osesp soube filtrar critérios para uma decisão que pareceu bem democrática. Todos que lutamos pelo fortalecimento da Osesp e pelo desenvolvimento da cultura no Brasil ficamos orgulhosos com o resultado, mesmo que eventualmente tivéssemos outras preferências.

Pois é. Quase 15 anos após o maestro John Neschling ter dado início a essa revolução cultural chamada Osesp, ainda temos na cidade organismos culturais que nos aproximam bem mais da Índia do que da Bélgica, para usar aquela famosa ideia da “Belíndia”, expressão cunhada pelos sociólogos, anos atrás, para se referir aos contrastes típicos das sociedades terceiro-mundistas.

A nossa vergonha cultural é o Teatro Municipal de São Paulo, mais tradicional palco da cidade, que neste ano, de portas fechadas, comemora tristemente o seu centenário. Onerando os cofres públicos em milhões de reais todos os meses, o Teatro Municipal não oferece à cidade o bem para o qual foi concebido, qual seja, a ópera. (A bem da verdade, não oferece nem ao menos música sinfônica.) Amarrado a uma estrutura antiquada e burocrática no pior sentido do termo, o teatro é implacável na destruição de qualquer iniciativa de mudança. E a lista dos maestros e gestores moídos pela máquina acaba de ganhar mais um medalhão, desta vez o oboísta e maestro Alex Klein.

Não pensem que os derrotados são fracos, incompetentes ou covardes. A lista ostenta nomes de personalidades que se afirmaram entre os melhores do mundo – taí Alex Klein para confirmar. Ocorre que não há força humana capaz de enfrentar a morosidade e a impessoalidade cínicas da burocracia do estado. Um projeto de lei em tramitação na Câmara de Vereadores, que pretende transformar o Teatro Municipal em uma fundação pública, é a luz que brilha no fim do túnel. O túnel, contudo, parece um filme de terror – quanto mais se avança nele, mais fraca a luz vai se tornando.

Em pleno século 21, com modernos modelos de gestão funcionando na cidade, a nossa esperança está depositada na Câmara de Vereadores – que não prima propriamente pela sua transparência e celeridade –, para a criação de uma fundação pública atrelada ao estado (diferentemente da Fundação Osesp, que é uma entidade de direito privado). Depois disso, para garantir agilidade administrativa, o governo considera criar uma Organização Social (oba!), contratada pela Fundação, aprovada pela Secretaria de Cultura. Simples, né? No ritmo em que estamos, quem sabe até o bicentenário do Teatro Municipal a gente chegue lá – quero dizer, a gente não: será o Alex Klein Neto (ou Bisneto...)

Não haverá solução para o Teatro Municipal de São Paulo enquanto não houver um real interesse e engajamento da cúpula do governo, assim como não existiria hoje a Sala São Paulo nem a Osesp se Mario Covas e Marcos Mendonça não tivessem se comprometido com o projeto (inclusive financeiramente). Se a alternativa da fundação pública é aquela que se apresenta, vamos em frente. Mas é imprescindível que a prefeitura reconheça sua responsabilidade nesse assunto e mobilize a Câmara para a aprovação da lei. E prepare, com convicção, a organização social que firmará o contrato com a nova fundação.

O novo diretor artístico e regente titular do Teatro Municipal de São Paulo, maestro Abel Rocha, é um dos mais valiosos artistas de nosso país. Sua nomeação dever ser vivamente comemorada! Mas não queremos vê-lo engrossar aquela lista de notáveis moídos pela máquina burocrática.

O governo municipal deve finalmente abraçar a causa e alçar o Teatro Municipal à prioridade que ele merece!

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