Beatriz Alessio e um Gilberto Mendes que dá gosto de ouvir

No ano em que perdemos Gilberto Mendes (1922-2016), surge uma ocasião valiosa e oportuna de avaliar o legado de um dos mais criativos compositores brasileiros de todos os tempos: o disco Beatriz Alessio plays Gilberto Mendes.

 

Santista, Alessio desenvolveu uma ligação especial com a música contemporânea em geral e com o universo de Mendes em particular, trabalhando suas obras sob a orientação do compositor. Professora de piano e música de câmara da Universidade Federal da Bahia, lançou seu álbum pelo selo italiano Cut Records – mas agora ele chega ao Brasil, felizmente, a preço de CD nacional.


Beatriz Alessio [Foto: divulgação]

Para este disco, ela escolheu registrar os Estudos para piano solo de Gilberto Mendes – oito obras escritas entre 1989 e 2004, a partir de encomenda de José Eduardo Martins. Do ponto de vista estético, se adotarmos a divisão em três fases proposta por Antonio Eduardo Santos no livro O antropofagismo na obra pianística de Gilberto Mendes (Annablume, 1997), todas as obras pertencem ao terceiro período, o de Trans-Formação, no qual, nas palavras de Santos, “Gilberto Mendes encara o sistema atonal como uma projeção e expansão do sistema tonal, promovendo o que ele denomina integração entre os dois sistemas, na medida em que, para o compositor, tonal e atonal não são antagônicos. O resultado é um discurso sonoro que flui naturalmente entre os dois universos harmônicos, dialeticamente”.

Esse jogo dialético e talvez – com perdão da expressão – “pós-moderno” perpassa o CD desde a primeira faixa, Um Estudo? Eisler e Webern caminham nos Mares do Sul, de 1989, em que Mendes parte dos universos díspares de dois discípulos de Schönberg, o alemão Hanns Eisler (1898-1962), com sua música tonal a serviço do comunismo, e o serialista austríaco Anton Webern (1883-1945), de produção abstrata e refinada, para sintetizá-los em um surpreendente final que soa a música hollywoodiana dos anos 1940.

Fazem-se presentes ainda transcrições pianísticas de partituras originalmente escritas para outros instrumentos. Assim, Estudo sobre “A Lenda do Caboclo, a outra” (1992) reelabora uma peça para coro com óbvia alusão à obra homônima de Villa-Lobos, enquanto Estudo sobre “O Pente em Istambul” (1995) nasceu de uma criação original para percussão. Já o precioso Estudo sobre Ulysses (surfando com James Joyce e Dorothy Lamour), de 1991, relê uma das mais emblemáticas criações de Mendes, e recebe aqui uma interpretação especialmente saborosa de Alessio.

Não devemos nos esquecer de que Gilberto estudou piano na juventude, conhecia o instrumento especialmente bem e sabia explorar seus recursos. Do ponto de vista de técnica instrumental, a obra do disco que mais chama a atenção é o Estudo Magno, cujo virtuosísmo possui inequívoco caráter de toccata. Aqui, como no resto do álbum, Beatriz Alessio alia domínio pianístico, profundo conhecimento do universo do compositor, atenção para o peculiar humor de Mendes e aos estilos díspares de suas numerosas alusões e citações, transformando a audição repetida do disco em uma experiência das mais prazerosas.

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