Bienal é rico manancial da criação erudita de nossos dias

por Nelson Rubens Kunze 13/10/2015

Abriu no último sábado, dia 10 de outubro, no Rio de Janeiro, a 21ª Bienal de Música Brasileira Contemporânea. Criada em 1975, ela é hoje, no Brasil, o maior evento em torno da criação da música clássica de nossos dias. A bienal é realizada pela Funarte, órgão do Ministério da Cultura, e dirigida por Flavio Silva e Maria José de Queiroz Ferreira. Nesta edição, o evento tem 10 concertos com 66 estreias mundiais (entre obras encomendadas e concursadas) nas mais diversas formações, da orquestra sinfônica ao instrumento solo, passando pelos recursos eletroacústicos. No texto de apresentação do catálogo, Flavio Silva escreve que, entre 2010 a 2015, a bienal promoveu em média 34,3 estreias por ano. “É provável que poucas instituições estrangeiras, por prestigiosas que sejam, atinjam essa média”, diz. É de fato significativo o investimento realizado pelo MinC nos últimos anos. Corroborando a tese, o presidente da Funarte, Francisco Bosco, afirmou, em sua breve fala na abertura, que o evento “é de fundamental importância para a cultura nacional”.

Assisti aos dois primeiros concertos da bienal, sábado, com a Orquestra Juvenil da Bahia no Theatro Municipal, e domingo, um concerto com obras de câmara na Sala Cecília Meireles. Foram ao todo 14 estreias: sete obras encomendadas de consagrados nomes da música de nossos dias (Jorge Antunes, Paulo Costa Lima, Eli-Eri Moura, Liduíno Pitombeira, Silvio Ferraz, Raul do Valle e Aylton Escobar); e outras sete de autores que venceram o Prêmio Funarte de Composição Clássica 2014 (Alexandre Espinheira, Lucas Duarte, José Augusto Mannis, Alexandre Ficagna, Sam Cavalcanti, Mario Ferraro e Cadu Verdan). No geral, tivemos a mostra de um amplo e representativo painel da música clássica brasileira atual.


Orquestra Juvenil da Bahia sob regência de Ricardo Castro, no Municipal do Rio [foto: Sebastião Castellar]

Foi a primeira vez que ouvi ao vivo a Orquestra Juvenil da Bahia, grupo de ponta do projeto Neojiba, que esteve sob regência de Eduardo Torres e de seu diretor, Ricardo Castro. Equilibrada e com bonito som, a orquestra enfrentou bem o repertório, tarefa nada trivial considerando o ineditismo da música e a variedade de linguagens composicionais. Foi muito bom, também, o desempenho dos solistas das apresentações de câmara do segundo dia.

Quanto às obras, todas se revelaram trabalhos bem acabados, em um verdadeiro caleidoscópio de técnicas e tendências artísticas. Mas claro, há diferenças, especialmente quanto à maturidade da expressão. Dentre as peças concursadas, selecionadas por meio de edital da Funarte, chamou-me a atenção a criação do paraense Alexandre Ficagna, Escondido num ponto, que ademais teve excelente interpretação do Abstrai Ensemble (Pauxy Gentil-Nunes na flauta, Marcus Ribeiro no violoncelo, Pedro Bittencourt no sax e Marina Spoladore no piano). Ficagna foi muito feliz na utilização de ruídos instrumentais (inclusive piano preparado) na elaboração de um consistente discurso musical.

Se é verdade que um festival com as características da Bienal de Música Brasileira Contemporânea – ou seja, que abrange apenas criações de nossos dias – reforça um certo segregacionismo deste repertório, é lamentável que esse verdadeiro manancial da criação atual não seja mais explorado pelos programadores e diretores artísticos de nossa orquestras e entidades promotoras. A inserção dessas obras na programação regular de nossos teatros, ao lado de autores de outras épocas e estilos, estabeleceria um diálogo que poderia auxiliar para uma verdadeira e real revitalização da atividade musical erudita.

A bienal segue com concertos diários, sempre às 19 horas, na Sala Cecilia Meireles, até o próximo domingo, dia 18. No fim de semana, ainda haverá uma interessante programação extraordinária em torno de Mário de Andrade e Hans-Joachim Koellreutter, com exibição da ópera Café, mesa-redonda com o tema “Música e política, entre Mário de Andrade e Koellreutter”, e recital e palestra sobre o Grupo Música Viva.

[Nelson Rubens Kunze viajou ao Rio de Janeiro e assistiu aos concertos a convite da 21ª Bienal de Música Brasileira Contemporânea]

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