Biografia revela a pessoa Jayme Ovalle

por Camila Frésca 04/09/2008

Quem já ouviu o nome Jayme Ovalle certamente vai associá-lo a outro: Azulão, título de uma pequena peça para canto e piano que, com apenas dezesseis compassos e versos de Manuel Bandeira, faria seu autor conhecido internacionalmente e gravado por vozes como as de Kathleen Battle, Victoria de Los Angeles, Maria Bethânia e Elizeth Cardoso. Não eram abundantes no entanto - mesmo nos meios musicais - informações sobre o compositor desta pequena jóia. Fruto de um exaustivo trabalho do jornalista e escritor Humberto Werneck, "O santo sujo - a vida de Jayme Ovalle" (Cosac Naify, 2008), é uma biografia que vem preencher esta lacuna.

Figura personalíssima e muito querida pelos amigos, Jayme Ovalle (1896-1955) nasceu em Belém do Pará e adolescente mudou-se para o Rio de Janeiro. Embora possuísse, segundo dezenas de depoimentos, uma espécie de "alma de artista" e fosse naturalmente um ser poético, capaz de tiradas brilhantes, não deixou grande legado. "O espantoso em Ovalle é que coincidissem nele um artista tão profundo, embora tão deficientemente realizado, um boêmio tão largado, um funcionário aduaneiro tão exemplar na sua honradez e competência, e um ser moral de ternura a um tempo tão ardente e tão esclarecida", afirmou sobre ele o amigo Manuel Bandeira.

"O santo sujo" não apenas reconstrói minuciosamente a biografia de Ovalle - dando conta de muitas de suas bizarrices, como a intenção de reescrever a Bíblia ou sua paixão por uma pomba -, como nos fornece ampla reconstituição de sua genealogia familiar e de parte da história de Belém do Pará. Trata ainda das transformações urbanísticas por que passava o Rio de Janeiro no início do século XX, quando Ovalle chega à cidade. O mais importante, contudo, é a enorme e bem feita pesquisa historiográfica que recupera e documenta boa parte do trânsito e relações dos intelectuais do Rio de Janeiro na primeira metade do mesmo século.

Porém, aqueles que vão ao livro na esperança de saber mais sobre a produção musical do autor de Azulão podem ficar decepcionados. Pouco saberemos afora o fato que ele compôs ao todo 33 canções, que além de Azulão incluíam títulos como Modinha e Berimbau, e que foram passadas ao papel com a ajuda de um colega músico. Claro que uma biografia não tem a obrigação de, além de reconstituir a vida, analisar a obra do biografado. Mas, sendo alguém hoje lembrado sobretudo por sua música, valeria a pena tratar um pouco mais deste aspecto. Por vezes fica a impressão de que o autor, apaixonado por seu personagem, prefere não avançar em momentos em que a crítica não lhe seria favorável, como nas apreciações sobre seus poemas (embora ao final do livro, com as opiniões da viúva de Ovalle, a fragilidade de sua produção fique mais clara) e sobre suas canções.

A partir desta constatação, pode-se ter duas reações: permanecer frustrado pela ausência de informações musicais, ou se dar conta de que esta não deve ser tão relevante, como menos ainda parece ser sua produção poética. Nesse caso, porém, vem a impressão de que a biografia é maior que o biografado, mesmo a esta altura tendo consciência de que Ovalle é um personagem que está ao mesmo tempo além e aquém da figura estrita de músico.

Na introdução do livro, Humberto Werneck de certa forma justifica a pertinência de seu tema no fato de que, embora sendo um "artista praticamente sem obra", Ovalle influenciou profundamente a produção dos amigos que com ele conviveram, como Vinícius de Moraes, Murilo Mendes, Manuel Bandeira ou Fernando Sabino. Assim, percebe-se que o autor não estava interessado nas qualidades de músico ou poeta do biografado, mas sim em registrar a figura extraordinária que foi Jayme Ovalle, e como ela iluminou seus colegas. O trabalho de pesquisa é sem dúvida excelente. Cabe aos leitores, agora, ponderar tais questões e arriscar uma conclusão.

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