Biscoitos finos para a massa

por João Marcos Coelho 09/05/2012

Desculpem a insistência com o tema, sobre o qual já escrevi neste espaço, mas tenho de voltar a falar da Virada Cultural. Tudo por causa de uma imagem que se transformou numa obsessão na minha cabeça nos últimos dias. Vocês certamente se lembram dela. Uma multidão se espremendo, lutando bravamente num tumulto declarado. E para quê? Disputando a galinhada do “chef” Alex Atala, dono do quarto melhor restaurante do mundo, segundo uma badalada pesquisa internacional recente.

Até aí, tudo bem, pensei. O povão queria ver como se alimenta o pessoal do andar de cima, degustar o biscoito fino do qual jamais sonhara chegar mais próximo do que contemplar com água na boca uma foto de um dos pratos alexianos (ou atalianos?) numa dessas revistas luxuosas de gastronomia. As autoridades exultaram com o tumulto – prova do êxito da Virada. Entrevistados, as respostas dos consumidores de primeira viagem da alta gastronomia de Atala coincidiram num ponto: declararam-se decepcionados com a exígua quantidade de comida, reduzida a um pedacinho de frango recobrindo algo inidentificável, parecido com arroz ou creme, sei lá. Atala também deve ter se arrependido do gesto populista.


Multidão em frente à barraca de Alex Atala no Minhocão e imagem do restaurante D.O.M. [fotos: divulgação]

São várias as lições a se tirar do episódio. A primeira, sem dúvida, é que ninguém perguntou à massa se ela queria mesmo o biscoito fino. A segunda é que lhe venderam gato por lebre. O copinho de plástico com uma remota lembrança da galinhada do ilustre chef está longe, muito longe do contexto sofisticado de seu restaurante, no qual fazem seus repastos os mais apetrechados, financeiramente falando.

Com a música, foi a mesma coisa. O que passo a relatar resulta do que saiu na imprensa. Resumindo: tudo parecia fora do lugar. Levar o complexo piano de McCoy Tyner, parceiro lendário do saxofonista John Coltrane, e seu quarteto para um show ao ar livre soa no mínimo inadequado. Os exemplos poderiam multiplicar-se, já que foram, segundo os orgulhosos releases oficiais, mais de 4 milhões de pessoas presentes em 1.000 eventos. Mil eventos em 24 horas? Seguramente, é a maneira mais eficiente e rápida de gastar a verba cultural de um ano inteiro. Alguém aí lembra do desenho do papa-léguas. Quem viu, viu; quem não viu, só na Virada do ano que vem. Como o ano – descontando-se os feriados e as férias escolares – tem 250 dias, aproximadamente, com estes recursos seria possível realizar quatro eventos musicais diários, o ano inteiro. É uma de dezenas de idéias que contribuiriam mais para a vida musical da cidade. Mas a virada ta virando vírus – já tem uma estadual. Daqui a pouco o MinC se entusiasma e faz uma nacional, já pensaram? Cinco milhões de eventos em 24 horas, do Oiapoque ao Chuí? Gente como o Cachoeira adoraria.


Fila sobre o Minhocão, em São Paulo, à espera da galinhada de Alex Atala [foto: divulgação / reprodução site jornaldiadia.com.br]

Voltando ao biscoito fino. Alguém aí acha que o público que viu os espetáculos eruditos está levando o chamado banho de loja de música clássica e começará a consumi-la daqui para a frente? Desde quando evento transforma a vida musical de uma cidade? Pode transformar a vida de quem os organiza, isso sim. Quanto aos músicos, bem... eles só estão a fim de abiscoitar (trocadilho infame!) uma graninha extra...

Desculpem novamente. A imagem do povão disputando o copinho de galinhada do Alex Atala não me sai da cabeça. Além do símbolo que carrega, confesso que há também nisso uma razão pessoal: afinal, eu gostaria de receber em casa um copinho desses de galinhada do Atala. Justo. Pois não é o que diz a propaganda oficial, alardeando que leva médicos, kits para mães grávidas e remédios na casa dos munícipes? Tai uma boa idéia. Uma virada gastronômica: que tal levar os biscoitos finos para quem tem de fato fome?


Alex Atala [montagem/foto: divulgação]