Boas orquestras fora do eixo Rio-São Paulo

Tantas iniciativas bacanas já deram para trás no cenário da música brasileira de concerto que a gente sempre fica ressabiado na hora de fazer uma afirmação otimista. Porém, com todas as ressalvas de praxe, não parece exagero dizer que, ao que tudo indica, uma importante subida de nível das orquestras está ocorrendo fora do eixo Rio-São Paulo.

O caso mais antigo, e sintomático, é o da Amazonas Filarmônica, de Manaus, que foi criada no final dos anos 90 - por pura coincidência, na mesma época em que começou o processo de renovação da Osesp. Nesta década de atividades, houve, é claro, oscilações de qualidade, mas, especialmente devido à sua associação com o Festival Amazonas de Ópera, a orquestra parece hoje consolidada como uma das mais importantes do Brasil.

Mais recentemente, Ira Levin, depois de sacudir o Teatro Municipal de São Paulo, tomou as rédeas da Orquestra Sinfônica do Teatro Nacional Claudio Santoro, em Brasília, programando temporadas ambiciosas, com programas diversificados e solistas de peso. Qual era o nível da orquestra antes desses dois anos de trabalho do Ira por lá eu não tenho como avaliar, por não tê-la ouvido tocar. Mas, mês passado, eu estive entre a meia-dúzia de gatos pingados que, em uma noite de sábado, se deslocou à Sala São Paulo para ouvir a orquestra. E fiquei impressionado. Bem impressionado. A sinfônica de Brasília mostrou uma sonoridade robusta e com personalidade, equilíbrio entre os naipes, alto nível técnico... A apresentação merecia um público melhor.

O termo de comparação que me falta para avaliar Brasília sobra-me, contudo, para falar do trabalho que vem sendo feito em Minas Gerais. Porque sempre me lembrei daquela orquestra pela desafinação, pela sonoridade opaca, pelos desencontros... Quando ouvi dizer que a Lúcia Camargo tinha ido para lá renovar a orquestra, e chamado o Fábio Mechetti para regente, confesso que já me animei, mas ainda não sabia o que esperar do resultado final até ouvir, em junho, a ópera Pelléas et Mélisande, de Debussy, sob a batuta de Abel Rocha. Era outra orquestra, refinada e musical, para apagar de vez as péssimas lembranças do passado!

Com Mechetti, infelizmente, ainda não tive a chance de ouvi-los; contudo, na semana passada, voltei à capital mineira para uma produção de Aida, de Verdi. A cenografia era até interessante, mas o elenco, para ser franco, esteve longe de me agradar (com exceção do baixo Luiz Ottavio Faria e da soprano Elizeth Gomes). Legal mesmo foi ver que a Filarmônica de Minas Gerais (desta vez, dirigida por Roberto Duarte) continuava tocando bem. A torcida, agora, é não apenas para que estes exemplos contagiem outras cidades brasileiras, mas também para que a recessão global que se anuncia não implique em cortes de gastos que façam estas iniciativas tão relevantes naufragar.


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