"Bohème" em BH: uma grande Mimì em uma montagem precária

Nem só de Gustavo Dudamel vivem as glórias musicais do badalado El Sistema, da Venezuela. Enquanto Edicson Ruiz abrilhanta o naipe de contrabaixos da Filarmônica de Berlim e Diego Matheuz sacode sua batuta à frente da Orquestra Mozart (de um certo Claudio Abbado) na cidade italiana de Bolonha, o Brasil teve a chance de conhecer o talento da soprano Mariana Ortiz.

No papel de Mimì, a venezuelana foi o grande destaque da montagem de La Bohème recentemente levada à cena no Palácio das Artes, em Belo Horizonte. Além de possuir o tipo vocal e físico adequado a Mimì, e de se fazer ouvir o tempo todo (tarefa nada fácil na ingrata acústica do Palácio), Ortiz foi a integrante mais musical do elenco, com um fraseado inteligente e elegante. Foi um prazer ouvir seus crescendos e diminuendos, bem como o dueto no terceiro ato com o Marcello de Leonardo Neiva, que cantou com a solidez habitual.


Cena da ópera La Bohème, no Palácio das Artes, em Belo Horizonte [foto: divulgação/Paulo Lacerda]

Capítulo à parte foi o veterano Rio Novello, que demonstrou ainda possuir um centro grave poderoso ao encarnar os pequenos papéis de Benoit e Alcindoro. Barítono de carreira internacional e viúvo da inesquecível Neyde Thomas, Novello é um dos grandes professores de canto do Brasil - difícil imaginar homenagem mais oportuna, merecida e tocante.

Se no papel de Museta Fabíola Protzner empregou uma voz com volume e desenvoltura cênica, o  Rodolfo do tenor Marcos Paulo constituiu o maior problema vocal, com uma caracterização apaixonada do personagem prejudicada por dificuldades de projeção, agudos instáveis e tendência a gritar. Do fosso, os sons produzidos pela Filarmônica de Minas Gerais, como tem sido o hábito dessa excelente orquestra, eram agradáveis; contudo, Roberto Tibiriçá aqui parecia menos inspirado do que na Traviata anteriormente feita no mesmo teatro e, entre atrasos e desencontros, a leitura soou fria e insípida.

A direção cênica foi assinada por um triunvirato: Luiz Aguiar como régisseur, Marcelo Cordeiro como assistente de direção e Henrique Passini como encenador (pelo que dizem, chamado de última hora para “salvar” o espetáculo).

O fato é que o colegiado não funcionou. Cenários, iluminação e figurinos pareciam pertencer a três espetáculos diferentes; os elementos não dialogavam entre si e careciam tanto de impacto plástico e visual como de força teatral. O Palácio das Artes tem o mérito de vir produzindo ópera com qualidade e regularidade nos últimos anos - tendo virado, por causa disso, uma bem-vinda exceção no instável operístico nacional. Nessa Bohème, infelizmente, a casa ficou abaixo do bom nível que nos acostumamos a esperar dela.


Irineu Franco Perpetuo viajou a Belo Horizonte a convite do Palácio das Artes e assistiu à récita do dia 22 de outubro.