Bom concerto abre temporada 2016 da Orquestra Petrobras Sinfônica

por Nelson Rubens Kunze 19/03/2016

Vou falar aqui da Petrobras, mas vou falar de coisa boa! É que, não custa lembrar, a petroleira brasileira mantém desde 1987 – quase 30 anos! – uma orquestra sinfônica no Rio de Janeiro, a Orquestra Petrobras Sinfônica, ou Opes. A orquestra, que neste período trabalhou ininterruptamente, tem algumas particularidades (além do fato de ser mantida pelos recursos de uma estatal): ela é gerida pelos próprios músicos, por meio de um conselho diretor eleito entre seus instrumentistas. O conselho define a orientação do trabalho e seleciona o regente titular e todos os administradores da orquestra. Desde 2004, o maestro Isaac Karabtchevsky reponde pela regência titular e direção artística do grupo.

 

Vim ao Rio de Janeiro para acompanhar a abertura da temporada 2016 da Opes, que, como em anos anteriores, terá duas séries de assinaturas, Djanira e Portinari, com rico e diversificado repertório e a participação de destacados artistas brasileiros. O primeiro concerto do ano, abertura da série Djanira, foi ontem (18 de março), no Theatro Municipal do Rio de Janeiro, sob direção do maestro titular Karabtchevsky e com a participação do pianista Flavio Augusto. Logo na entrada, uma surpresa: uma fanfarra de metais apresentava-se no saguão principal, uma ação que pretende trazer a orquestra para mais perto de seu público e quebrar um pouco da formalidade do tradicional concerto erudito. (A orquestra tem diversos programas nesse sentido; aliás, exatamente nesse momento, a Opes concorre ao Prêmio Profissionais da Música 2016 por um projeto do ano passado em que seu quinteto de metais apresentou-se em um concerto surpresa em uma cervejaria do Leblon.)

Isaac Karabtchevsky é sem dúvida um de nossos artistas mais brilhantes. Aos 81 anos de idade, o maestro tem gás para desenvolver simultaneamente três projetos: este da Opes no Rio de Janeiro, a direção artística e regência titular da Sinfônica Heliópolis em São Paulo, e o projeto de gravação da integral das sinfonias de Villa-Lobos que realiza com a Osesp.

O programa de ontem iniciou-se com o Uirapuru, de Villa-Lobos, em uma leitura orgânica e sensível. Seguiu-se uma obra pouco ouvida nas salas de concerto, Os quatro temperamentos para piano e cordas, do alemão Paul Hindemith (1895-1963), que contou com a participação do pianista Flávio Augusto. A música, que tem diversas passagens bem camerísticas, teve muito boa execução. Em perfeita sintonia com a orquestra, o solista Flávio Augusto destacou-se por seu bonito toque ao piano e cuidado no acabamento da interpretação.

A Orquestra Petrobras Sinfônica é aplaudida no Theatro Municipal do Rio de Janeiro [Foto: Revista CONCERTO]

A segunda parte do programa trouxe duas obras aparentadas, de dois discípulos de Rimsky-Korsakov: Nikolai Tcherepnin (1873-1945) e Igor Stravinsky (1882-1971). O reino encantado op. 39, de Tcherepnin, foi uma encomenda de Sergei Diaghilev, criador dos famosos Balés Russos, para seu projeto de musicar a lenda russa de Kashai, o imortal, mesmo projeto que levou Stravinsky a escrever a sua primeira obra-prima, O pássaro de fogo. O reino encantado é uma peça de atmosfera misteriosa e sombria, em um só movimento, que, apesar de sua breve duração (cerca de 15 minutos), soa um pouco prolixa. Com seu caráter romântico, ela não tem nada em comum com a energia rítmica, colorida e modernista do Pássaro de fogo de Stravinsky (versão suíte de 1919). O maestro regendo de memória, a orquestra concentrada, os naipes equilibrados e os bons instrumentistas solistas ofereceram uma emocionante interpretação desta que é uma das obras chave do início do século XX.

Nesses tempos conturbados, é bom saber que o nome Petrobras esteja associado também a um projeto cultural de alto nível, que leva a sério a sua missão artística, educativa e de difusão da música clássica.

[Nelson Rubens Kunze viajou ao Rio de Janeiro e assistiu ao concerto a convite da Orquestra Petrobras Sinfônica.]