Bragança Paulista ganha série de música clássica

por Nelson Rubens Kunze 13/05/2016

Em uma iniciativa da Sociedade Ítalo-Brasileira, com apoio do governo do Estado de São Paulo e o patrocínio de diversas empresas, a cidade de Bragança Paulista, no interior de São Paulo, programou até o fim de julho a série “Concertos na Sociedade”. Serão 8 apresentações de câmara reunindo artistas como Amaral Vieira e Erich Lehninger. A direção geral é da produtora Leila Gazzaneo.

 

Acompanhei a estreia da temporada, no sábado dia 7 de maio, que contou com um concerto da Camerata da Orquestra Filarmônica do Brasil (Fibra), sob direção de Laércio Diniz e solos do pianista Paulo Gazzaneo, que também é diretor artístico da série.

A primeira surpresa foi descobrir a significativa tradição clássica naquela cidade paulista. A própria Sociedade Ítalo-Brasileira, fundada em 1891 e uma das mais antigas do Brasil, mantém uma orquestra jovem e uma orquestra de câmara amadora, que se apresentam ao longo do ano em concertos públicos. Outra curiosidade, é que a entidade incorporou, na primeira metade do século passado, uma antiga Sociedade Carlos Gomes que funcionava na cidade, como me explicou seu diretor Edilberto Raimundo Daolio. Além disso, a cidade mantém a Orquestra Sinfônica de Bragança Paulista, composta majoritariamente por músicos convidados de outras regiões, e que tem regência do maestro Eduardo Ostergreen. E tudo isso sem falar no antigo Teatro Carlos Gomes, fundado em 1894 e um dos mais antigos do estado. Falido já no início do século passado, a grande construção – o teatro original abrigava mais de 1000 pessoas – passou a funcionar como escola e acabou fechado em 2000. Tombado pelo Conselho de Defesa do Patrimônio Artístico e Cultural da cidade, o prédio, adquirido pela prefeitura em 2005, aguarda restauração.

O concerto de abertura da nova série musical aconteceu na Sociedade Sinfônica, um teatro com cerca de 300 lugares, praticamente todos ocupados. A Camerata Fibra começou com o Divertimento K136 de Mozart. Seguiu-se a Fantasia para piano e orquestra de cordas de Paulo Gazzaneo, que teve o próprio compositor como solista. Em linguagem tonal neoromântica, a peça alterna momentos de grande intensidade rítmica a passagens de amplo lirismo, intercaladas por cadências virtuosísticas do piano. Apesar de sua forma livre própria de uma fantasia, a obra encerra um discurso orgânico e consistente.


Maestro Laércio Diniz rege Camerata Fibra [Revista CONCERTO]

Seguiu-se a Modinha imperial de Francisco Mignone, cuja estrutura e tratamento melódico lembram o Prelúdio da Bachiana 4 de Villa-Lobos. A apresentação se encerrou com uma sensível apresentação das Árias e Danças Antigas, Suíte 3, de Ottorino Respighi.

Um dos problemas estruturais da atividade clássica no Brasil é o fato dela estar restrita a alguns grandes centros urbanos e, aí, normalmente concentrada em torno de uma orquestra sinfônica. Um projeto como esse dos “Concertos na Sociedade”, que leva música de câmara ao interior do estado, representa uma importante ação para a difusão da música clássica de qualidade fora dos grandes centros. Quem dera a iniciativa possa inspirar outras sociedades em outros municípios do interior, de maneira a recuperar a nossa rica tradição artística.