Brahms, uma homenagem e um futuro em formação

por João Luiz Sampaio 16/07/2015

Sonho, pesadelo, despertar, dança. A história de uma obra muitas vezes se mistura ao modo como ela foi interpretada ao longo do tempo. E no caso da Sinfonia nº 2 de Brahms entra na conta também a visão que se tem da sua antecessora, em uma dinâmica interpretativa segundo a qual a segunda é o respiro depois da tormenta da primeira –  um exercício livre de composição na paisagem idílica de Pörtschach am Wörther See, finalizado ao longo de um retiro de verão, em oposição a uma obra que, enquanto o compositor tentava se livrar da sombra de Beethoven, levou duas décadas para ficar pronta e subir ao palco.

 

Por conta disso, é quase libertador assistir a uma interpretação da obra como a apresentada pela Orquestra Sinfônica Heliópolis na noite de segunda (dia 13) na Sala São Paulo, dentro da programação do Festival de Inverno de Campos do Jordão, sob regência do maestro Isaac Karabtchevsky, titular do grupo. O programa contou ainda com a Abertura Brasil 2012, de Dimitri Cervo, e o Concerto tríplice de Beethoven, com Hugo Pilger, Barbara Galante e Eduardo Monteiro como solistas. Mas, em especial no Brahms, o que se ouviu foi uma interpretação pensada de dentro para fora.


Com Isaac Karabtchevsky, a Sinfônica Heliópolis tocou na Sala São Paulo no dia 13 [foto: divulgação]
 
No primeiro movimento, a construção do discurso musical passou pela exploração da sonoridade das cordas, em um caminho atento aos planos sonoros, de rigor quase camerístico. No adagio non troppo, a flutuação entre o cuidado com a forma e a aceitação do lirismo romântico, em uma tensão palpável. Um Brahms dançante e pastoral no terceiro tempo; e, no allegro con spirito final, uma leitura enérgica, sim, mas equilibrada, baseada em um evidente senso de conjunto.

 


 

Um dia antes, na manhã de domingo, a Orquestra do Festival, formada pelos bolsistas do evento, fez sua primeira apresentação, com o Concerto de Sibelius interpretado pelo violonista Luiz Filip e os Quadros de uma exposição,de Mussorgsky, na orquestração de Maurice Ravel. O concerto foi uma homenagem ao professor Sigrido Levental, criador do Conservatório Musical Brooklin Paulista, autor do anteprojeto de criação da ULM (ao lado de Aylton Escobar), ex-diretor do festival e ex-coordenador da área pedagógica da Osesp. Arthur Nestrovski, em suas palavras, lembrou a importância do trabalho do professor na formação de gerações de músicos.

Os altos e baixos da interpretação parecem compreensíveis em um grupo formado apenas uma semana antes. Mas sua própria razão de ser – e o contexto de homenagem a Sigrido Levental – são simbólicos de um momento especial da vida musical brasileira, ainda mais se somados ao concerto realizado pela Sinfônica Heliópolis (ou a Orquestra Jovem do Estado, que se apresentou uma semana antes). Na conta, são quase duzentos músicos, muitos vindos de uma série de projetos educacionais criados ou desenvolvidos nos últimos tempos. Não é devaneio poético pensar que nesses grupos está o futuro da música brasileira: são esses músicos, afinal, que em breve serão a força motriz da vida musical do país. Vê-los no palco é vislumbrar esse futuro – e também torcer para que, em um contexto recente de cortes, não se perca de vista que há processos importantes demais para serem interrompidos.

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