Camargo Guarnieri: os lindos concertos do homem invisível

No divertido livro “O resto é ruído – Escutando o século XX”, Alex Ross chama os compositores americanos de “homens invisíveis”, lutando pela visibilidade de sua arte. “Cada geração tem de refazer todo o trabalho. Os compositores têm uma eterna carência de apoio do Estado. Falta-lhes um público mais amplo; faltam-lhes séculos de tradição”, escreve Ross, em linhas que também parecem ter validade do lado de baixo do Equador.

Valeria, talvez, um acréscimo sobre o desinteresse dos intérpretes. Porque quando nossos profissionais dizem que “precisam” tocar mais música brasileira, via de regra o fazem com a mesma mescla de remorso e hipocrisia que levam alguém que se afastou da religião dos pais a afirmar que “precisa” frequentar a igreja, ou um progenitor relapso a murmurar que “precisa” passar mais tempo com os filhos.

Por isso eu fiquei para lá de empolgado quando recebi o luxuoso estojo Camargo Guarnieri: 3 concertos para violino e A Missão, um resgate muito oportuno da obra de um dos principais compositores brasileiros do século XX.

A caixa tem um CD-ROM com fonogramas de áudio em que Guarnieri aparece como pianista (acompanhando a amaneirada soprano Cristina Maristany em suas canções) e regente, dirigindo o Coral Paulistano em duas de suas obras. Há ainda uma entrevista em áudio do compositor, bem como as 285 melodias populares coletadas por Martin Brauwieser no Norte e Nordeste do Brasil na Missão de Pesquisas Folclóricas de 1938.

Há, ainda, “Notas soltas sobre um homem só”, um documentário sobre o compositor que é bem gostoso de assistir; dirigido por Carlos de Moura Ribeiro Mendes, o filme traz depoimentos pertinentes e valorosos de gente como Laís de Souza Brasil, Almeida Prado, Gilberto Mendes, Osvaldo Lacerda, etc.

Tudo isso já valeria a iniciativa, mas o mais atraente mesmo é a execução dos três concertos para violino e orquestra do compositor, tendo como solista Luiz Filipe, cuja afinação e sonoridade estão bem acima do nível que costumamos ouvir por aqui.

A guiá-lo pela senda do estilo guarnieriano, o jovem violinista tem o maestro Lutero Rodrigues, um especialista dotado não apenas de entendimento e erudição, mas também de carinho pela obra do compositor.

E, daí, vale um parêntese. Faz muito tempo que a Sinfônica Municipal anda por baixo, com seus músicos procurando a crítica especializada para se dizerem desvalorizados e escanteados. Pois bem: nesse DVD, a sinfônica mostra a boa orquestra que pode e deve ser, contibuindo de forma decisiva para dar vez e voz ao injustamente “invisível” Camargo Guarnieri.

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