“Candide”, de Leonard Bernstein, pela Osesp

por Lauro Machado Coelho 01/07/2014

Foi Lillian Hellman quem deu a Bernstein a sugestão de que usasse o conte philosophique de Voltaire como tema para uma nova ópera. Ela tivera sérios problemas durante o maccarthismo e poderia equacioná-los com as dificuldades que Cândido enfrenta nas mãos da Inquisição espanhola. Ela começou o libreto que, posteriormente, foi terminado por outros colaboradores.

O resultado foi uma opereta que exige cantores com uma formação lírica de alto nível, pois implica dificuldades técnicas consideráveis, apresenta efeitos de coloratura de um virtuosismo rossiniano. Rossini, de fato é um nome que ocorre a todo momento, desde a abertura, cheia de uma verve brilhante.

Já em Candide encontramos a riqueza dos ritmos dançantes de matriz norte-americana, que fará todo o encanto do grande musical que é West Side Story. Variedade de formas é uma característica definitiva dessa partitura. As situações muito variadas criadas pelas reviravoltas do estilo picaresco permitem a Bernstein utilizar recursos que vão do pastiche de música religiosa da cena do auto-da-fé após o terremoto de Lisboa até as volutas buliçosas do quinteto em que, na aula do professor Pangloss, discute-se a ideia leibniziana de que tudo está pelo melhor no melhor dos mundos.


Elenco de Candide, apresentado pela Osesp, no palco da Sala São Paulo [foto: divulgação]

Nesse quinteto, por exemplo, observa-se a habilidade com que Bernstein trança as vozes. Ele sabe extrair de suas melodias efeitos que vão do lírico – no dueto em que Cândide e Cunegunda fazem a primeira confissão de seu amor – ao humanístico: é deliciosa a ária I’m Easily Assimilated, que a Velha Senhora enumera as vicissitudes de sua vida. Ela é uma polonesa que veio parar na Espanha. No caminho foi roubada, agredida, estuprada e, durante um naufrágio, foi mutilada para alimentar seus companheiros (tiraram-lhe uma nádega).

A ação de Candide segue à risca o receituário do estilo picaresco: as personagens morrem das maneiras mais diversas e violentas; mas depois ressuscitam, reencontrando-se em outro lugar. É assim que Cunegunda, assassinada pelos soldados búlgaros que invadiram a Vestfália, vai aparecer em Paris. Ela se transformou na amante de um judeu usurário e de um bispo. Ao rever Cândido, decide fugir com ele levando suas joias.

Nas óperas encenadas pela Osesp opta-se necessariamente pela fórmula da semiencenação. Jorge Takla, já responsável por uma montagem, anos atrás, dessa mesma ópera no Theatro Municipal, usou uma iluminação sugestiva, e providenciou figurinos para as personagens. Funcionou muito bem, em particular a atuação do coro. Além de dançar, gesticular, dar gritos que emolduravam a ação, os coralistas erguiam cartazes que funcionaram como indicativos de cenários: as palavras boulangerie e pâtisserie quando chegaram em Paris; e imagens dos carneiros de ouro que fazem a riqueza do Eldorado. É de bom efeito o uso das faces sorridentes, cada vez que a história passa por uma fase favorável. E no apoteótico final, o coro joga para o ar longas tiras de papel que sugerem, de modo muito bonito, a explosão de fogos de artifício.

A cena final – um majestoso concertato de que participa todo o elenco – traz a lição de sabedoria do conto de Voltaire: a vida não é boa nem má; ela é a vida, a coisa mais preciosa que nos foi legada e deve ser vivida da melhor maneira possível, num mundo que nem sempre é perfeito. Isso se resume a uma fórmula que se tornou famosa: “Il faut cultiver notre jardin”. A opção pela vida simples, em contato com a natureza, trará finalmente uma serenidade que se aproxima da felicidade.

O espetáculo apresentado pela Osesp teve muitos aspectos satisfatórios. O elenco, trazido dos Estados Unidos, ostentava boas vozes. Cândido (Keith Jameson) era um tenor lírico elegante, com inflexões delicadas. Cunegunda (Lauren Snouffer) foi feita por uma soprano com belo colorido vocal e dona de coloratura muito fácil. A Velha Senhora (Joyce Castle) foi interpretada por uma contralto de muita verve cômica, imagino-a facilmente na pele de Mrs Quickly, a governanta de Falstaff.

Participação especial, como o Dr. Pangloss, foi a do barítono Paulo Szot, que vem fazendo prestigiosa carreira nos Estados Unidos. Seu generoso timbre de barítono foi muito bem explorado. Szot é um bom ator e soube aproveitar bem o exíguo espaço da parte dianteira do palco, em que podia movimentar-se.

Regendo a música de Bernstein, de quem foi aluna, Marin Alsop adotou tempos vivos e manteve uma temperatura dramática constante. O ritmo que imprimiu ao espetáculo, fazendo-o convergir para a cena final, foi muito envolvente e arrancou do público reações entusiásticas. Se me é possível exprimir uma opinião pessoal, dentre os diversos concertos e récitas de ópera que pude assistir durante o ano, esse Candide foi um dos mais sedutores. Curiosamente, os amigos que me acompanharam também foram muito tocados pelo que tinham visto, resultando daí uma conversa agradabilíssima no jantar em que, depois do espetáculo, curtimos o comentário dos mínimos detalhes.

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