A catarse de Cassandra

por Leonardo Martinelli 03/07/2012

Neste ano em que celebra seus 100 anos de fundação, a Sociedade de Cultura Artística (SCA) programou uma caprichada temporada, recheada com boas orquestras europeias, regentes e solistas vocais e instrumentais de destaque na cena clássica mundial. Mas, ainda assim, tudo isso seria mais do mesmo, e no final das contas a atração que legitima essas efemérides em alto nível artístico ocorreu neste início de julho, com as apresentações do Ensemble InterContemporain.

O grupo francês – que é, por assim dizer, considerado a “Filarmônica de Berlim” de música contemporânea – já havia estado anteriormente no país a convite da SCA, em sua temporada de 1996, em apresentações memoráveis. Para os ouvidos criativos, inesquecíveis porque o Ensemble se apresentou com um repertório rico e variado, ainda hoje raríssimo por aqui. Para os ouvidos preguiçosos, também ficou a lembrança de concertos em que muitas pessoas aproveitaram o intervalo para se escafederem (ah, nossas “elites”...).

Para uma instituição que realizou a inauguração de seu teatro (agora em reconstrução após um incêndio) com um concerto com obras novas encomendadas a mestres como Villa-Lobos e Camargo Guarnieri, é simbólico promover o retorno do mais conceituado grupo de música contemporânea do mundo, ainda que isso tenha sido apenas um lapso de modernidade e ousadia em meio à atuação, em geral bastante conservadora, de suas temporadas, mesmo no que diz respeito ao repertório não moderno.

A primeira apresentação do Ensemble na cidade funcionou como uma lufada de ar fresco, daquelas que refrigera e renova o espírito. Apostando em pratas da casa, o grupo interpretou obras de compositores que fazem parte do cotidiano no grupo – isto é, o francês Tristan Murail (1947) e suíço Michael Jarrel (1958) – terreno fértil para seus virtuoses desempenharem com apuro sua singular arte, sob a regência do competente Jean Deroyer.

Composta em 1993, La Barque Mystique, de Murail, foi inspirada a partir de uma série de pinturas do artista plástico Odilon Redon. Obra essencialmente camerística, organizada em forma de pequenas miniaturas, ela pode ser tomada como uma boa introdução deste mestre da “música espectral”, corrente que o compositor ajudou a fundar e que veio marcar uma nova era da música moderna de seu país.

Mas, por mais interessante que seja esta partitura de Murail, era claro que ela era apenas uma “overture” à grande atração da noite, a barca mística que conduziu a audiência ao mundo de Cassandra.

Com seu Cassandre, Jarrel resgata a célebre profetisa – filha do rei Príamo e da rainha Hécuba de Troia – que desempenha importante papel no sistema mitológico grego, tomando o texto adaptado para rádio que Gerhard Wolf realizou a partir da obra de Christa Wolf.

Composto em forma de monodrama – no qual o texto é apenas lido por uma atriz, acompanhada por uma pequena orquestra, com pontuais partes eletroacústicas – Cassandre é uma obra de rara exuberância, em que Jarrel elabora todo um novo universo de affetti a partir da relação estabelecida entre o texto, seus sentimentos, a partitura e suas sonoridades.

Peça de grandes dimensões (aproximadamente 50 minutos de duração) trata-se não apenas de um grande desafio composicional, mas também interpretativo, em especial, por parte da narração. Nesse sentido, a junção do trabalho do Ensemble com o a excepcional atuação de Marthe Keller foi mesmo catártica.

A atriz, nascida na Suíça, apesar de não ser habitué de Hollywood, é, ainda assim, bem conhecida por suas atuações ao lado de atores como Al Pacino e Marcello Mastroianni. Mais do que atriz, Marthe Keller é também uma artista em amplo sentido, tendo inclusive dirigido óperas como Dialogues des Carmélites, Lucia di Lammermoor e Don Giovanni, esta última nada menos que no Metropolitan de Nova York.

Se em seus primeiros minutos Cassandre emprega uma narrativa quase impessoal, ainda que em primeira pessoa, o texto desenvolve uma vertiginosa ascensão dramática, na qual a própria Keller se transfigura no palco, tendo como ponto culminante a violação de Cassandra por Ájax, momento de intensa dramaticidade, potencializada com maestria pela música de Jarrel.

Foi difícil para audiência não ter a própria respiração colocada em suspenso diante desta “purificação” estética, elemento inerente ao próprio sentido da catarse do espetáculo. Porém, de tão linda, acredito que a música de Jarrel se sustentaria mesmo sem a narração: de novo, difícil pensar em outra palavra que não “exuberância” para sua partitura, bem como para definir as apresentações do Ensemble InterContemporain no país.