Cenerentola: São Pedro no caminho certo, a trancos e barrancos

Quinze anos depois, La Cenerentola, de Rossini, volta ao Teatro São Pedro. Para celebrar a ocasião – que, em 1998, marcou a devolução da casa à programação da cidade –, o teatro homenageou o maestro John Neschling, que regeu a performance naquela época. Sinal de grandeza e generosidade de uma casa que reconhece e celebra sua história, em vez de negá-la. Se os motores que impulsionam nossas instituições culturais tivessem, todos eles, tal mentalidade, viveríamos em um lugar muito melhor.

Como aconteceu em tantos aspectos de nossa vida musical, Neschling, em 98, ao fazer uma Cenerentola, já sinalizava tipo de título adequado ao São Pedro. Infelizmente, depois disso, a casa se extraviou da via correta, cumprindo vicariamente a função de único teatro de ópera da cidade, durante os intermináveis anos em que o Municipal estava fechado, e apostando em títulos francamente descabidos para sua estrutura, com condições de performance muito aquém do tolerável.


Cena da ópera La Cenerentola no Theatro São Pedro [foto: divulgação / Décio Figueiredo]

Há que se festejar, assim, o retorno do São Pedro à sua vocação primordial. Uma análise da programação da casa para 2013 mostra grande clareza de propósitos: o São Pedro parece firmemente disposto a dar “passos do tamanho da perna”, que lhe vão conferir uma identidade própria e um lugar único e indispensável em nossa vida musical.

Uma casa nova não se faz do dia para a noite, e ainda havia muitos resquícios da precariedade anterior nesta nova montagem da Cenerentola. Por mais esforçados que fossem, os jovens cantores arregimentados para o coro estavam vários degraus abaixo do profissionalismo, e ouvi-los berrando de modo descontrolado constituía indizível martírio.

O maestro Emiliano Patarra possui méritos em uma condução fluente do espetáculo, mas também é inevitável dizer que, sob sua batuta, a Orquestra do Teatro São Pedro, na estreia, na sexta-feira, dia 15, rendeu bem menos do que seria o desejável, tanto em termos de vigor, como de sonoridade.


Cena da ópera La Cenerentola no Theatro São Pedro [foto: divulgação / Décio Figueiredo]

Já a encenação de Davide Garattini pode ser acusada de muita coisa, menos de beleza plástica. Se as interações entre os personagens funcionavam como efeito cômico certamente deliberado, a precariedade da cenografia era de uma comicidade obviamente involuntária – bem como o errático desempenho da iluminação.

Restaram os solistas e, se virtudes houve nessa Cenerentola, pertencem quase que integralmente a eles. Eram, sem exceção, vozes adequadas a seus respectivos papéis, e equilibradas entre si.

Para o meu gosto, a noite foi do experimentado barítono bufo Bruno Praticò, que, como Don Magnifico, teve uma atuação à altura de sua imensa reputação. A rigor, teria valido sair de casa só para reverenciar o gigantesco carisma e o domínio absoluto do palco desse artista consumado.

Com a excelência vocal e cênica que lhes é peculiar, as irmãs Edna e Ednéia de Oliveira foram um achado fazendo as irmãs da protagonista, com uma “química” entre si que transbordava para toda a plateia.


Cena da ópera La Cenerentola no Theatro São Pedro [foto: divulgação / Décio Figueiredo]

No papel principal, a jovem Loriana Castellano cantou com desenvoltura as coloraturas da difícil parte rossiniana, enquanto seu par romântico, o tenor uruguaio Leonardo Ferrando, mostrou vocalidade adequadamente ligeira para a linguagem de Rossini, embora seja cenicamente opaco e, por vezes, sua energia pareça cair.

Homero Velho, como Dandini, teve que negociar com as coloraturas, mas compensou essa dificuldade com o brilho e o talento cênico que faltavam a Ferrando, enquanto Carlos Eduardo Marcos mostrou segurança e projeção no papel de Alidoro.

Feitas as contas, o São Pedro felizmente deixou de ser o teatro do mico e da vergonha alheia. Mas ainda precisa caminhar para chegar à casa de ópera que pode e merece ser. Vamos torcer para que, embora ainda esteja andando aos trancos e barrancos, o teatro não se desvie do caminho certo.


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