Cyro Pereira e a Jazz Sinfônica

por Fábio Prado 03/03/2009

A Orquestra Jazz Sinfônica tem um perfil característico com concepções musicais e performáticas particulares. Criada em 1990, a Jazz mantém a tradição da sonoridade das orquestras da era de ouro das rádios, embora esteja sempre repensando-a e renovando-a. A marca registrada da “Jazz” é tocar música popular. Em primeiríssimo lugar, a música popular brasileira, mas sem preconceitos, também é fluente em diversos outros idiomas como tango, jazz, etc.

Presente desde sua fundação, o maestro Cyro Pereira e a Jazz formam sem dúvida, um par indissociável. Ele é considerado seu principal arquiteto sonoro, pois trouxe a bagagem musical de mais de 40 anos de experiência, escrevendo partituras e dirigindo orquestras dedicadas à música popular.

Em agosto deste ano, Cyro Pereira completa 80 anos. E a Jazz preparou, para todo o ano de 2009, uma série de concertos em sua homenagem. O primeiro deles, integrante da Série “Jazz Solo”, acontecerá no Theatro São Pedro, no dia 7 de março, sábado, às 21 horas. Neste espetáculo, ouviremos algumas obras emblemáticas de Cyro: A Lira do Lyra, uma fantasia com os principais temas de Carlos Lyra; a Suíte Edu Lobo, uma peça grandiosa e cheia de energia, e Jobimniana, uma de suas obras-primas, dedicada, como indica o título, a Tom Jobim. Segue-se, Poema para o Tom, onde ele mistura as melodias de Triste e Dindi; Passarim (para flauta e orquestra), Samba do Avião e Surfboard. Para conferir o lado “professor” de Cyro, vamos ouvir a peça Demais, num arranjo de um de seus discípulos mais destacados, Rodrigo Morte. No programa também está seu arranjo para um samba canção simpático, chamado Da Cor do Pecado, composição de Bororó e com solo de viola e trompa.

Em sua programação anual, a Jazz Sinfônica tem duas séries principais: a “Jazz +”, para a qual convida nomes de prestígio internacional e que acontece no Auditório Ibirapuera. A abertura, nestes concertos, conforme manda a tradição, se faz com obras de Cyro Pereira. A outra série é a “Jazz Solo”, no Theatro São Pedro, em que a orquestra é a grande estrela – a carinhosamente denominada “Prata da Casa” – que mostra o talento de seus músicos. Nesta série, durante todo o ano será oferecida ao público toda a versatilidade da obra de Cyro Pereira.

Ele chega aos 80 anos com o mesmo brilho presente em sua notável trajetória profissional. Maestro dos famosos Festivais da Record da Música Popular Brasileira, do final dos anos 60, trabalhou e colaborou com grandes nomes como Gabriel Migliori (compositor, entre outras, das trilhas de “O cangaceiro” e de “O pagador de promessas”), Hervè Cordovil, Lyrio Panicalli, Enrico Simonetti e muitos outros. Nos anos 80, trabalhou com a Orquestra Municipal de Campinas, criando peças híbridas em que se misturavam elementos da música popular com os da erudita, suas famosas “Suítes”. Foi também professor de orquestração da Unicamp entre 1990 e 1999. Nos anos 90, foi convidado para ser um dos maestros da Orquestra Jazz Sinfônica, onde finalmente pode realizar seu grande sonho, o de ter liberdade para escrever sua própria música.

Um dos aspectos marcantes da carreira de Cyro é seu bom humor. Certa vez, aos 23 anos, um repórter lhe perguntou como se sentia ao ser chamado de maestro tão precocemente, ao que ele respondeu: “Você sabe, às vezes alguém dá um apelido para um sicrano e pega. No meu caso, me chamaram de maestro e pegou...”. Este mesmo bom humor poderá ser conferido na peça Poema para o Tom. Ela começa com a frase “Triste é viver na solidão”, seguida de um arpejo ascendente e descendente. Perguntado a ele qual a razão disto, Cyro respondeu: “A idéia é de um rapaz num bar pensando no seu amor perdido, e entre uma frase e outra, ele toma um gole de bebida...”

Para encerrar, é preciso enfatizar a qualidade de sua música. A riqueza de timbres criada por Cyro para a orquestra se coaduna com seu senso de equilíbrio sonoro, que faz com que tudo seja percebido de forma límpida, permitindo que se notem as diferentes texturas harmônicas e de acompanhamento. Não é fácil escrever arranjos para orquestras, manter o discurso musical sempre fluente, sem que um instrumento se sobreponha a outro. Pereira consegue fazer isto de uma forma clara, organizada e “limpa”, ou seja, do ponto de vista musical, tudo está sempre em seu lugar, não existindo concessões nem exageros. 

Depois de tudo que foi dito, só me cabe convidar a todos para ouvir e se deleitar com a obra deste gigante da música brasileira, tanto nos concertos da Orquestra Jazz Sinfônica, como no CD “Cyro Pereira – 60 Anos de Música”, com destaque para seu concerto para piano e orquestra, chamado Fantasia em D sobre temas de Ernesto Nazareth, com interpretação do pianista Cláudio Richerme, sob a regência de Mário Valério Záccaro. Também está à disposição de todos o livro “Cyro Pereira – Maestro”, de Irineu Franco Perpetuo (clique aqui).

Serviço:
Orquestra Jazz Sinfônica do Estado de São Paulo
“Tom Jobim e a Bossa Nova por Cyro Pereira”

Regência: Cyro Pereira, João Maurício Galindo, Fábio Prado

Sábado, dia 07/03/09  21:00h
Thetro São Pedro
Rua Albuquerque Lins, 207
Tel.: 3661 6529


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