Demitiram o Abel Rocha!

Uma das histórias favoritas de minha infância era Alice no país das maravilhas, de Lewis Carroll. Devo confessar que a trama por vezes era demais rebuscada para a linearidade da minha mente infantil. Mas eu me deixava encantar com facilidade pelo caráter colorido e vivo de alguns personagens.

E eles não precisavam, necessariamente, ser bondosos. Um dos que mais me divertia era a Rainha de Copas, com sua hiper-suscetibilidade, e um remédio infalível para a mais ligeira contrariedade: “cortem-lhe a cabeça!” Eu achava que meu reencontro com esse personagem só se daria no ano que vem, quando está prevista a estreia da delirante versão de Tim Burton para o clássico de Carroll. Foi com uma mescla de surpresa e decepção, contudo, que me vi defrontado com a Rainha de Copas antes mesmo de o filme entrar em cartaz.

Sim, porque 2009, em São Paulo, parece ser um ano musical sob a égide da Rainha de Copas. Um a um, todos os maestros que se atreveram a fazer algo por aqui tiveram suas cabeças implacavelmente cortadas.

No começo do ano, a saída de John Neschling poderia ter tido até um outro título – Crônica de uma morte anunciada, já que o maestro estava na frigideira desde que José Serra assumiu o Palácio dos Bandeirantes. Roberto Minczuk também vinha sido cozido em fogo alto, e sua saída do Festival Internacional de Inverno de Campos do Jordão não chegou a surpreender.

Mas a Rainha parecia insaciável. E me chega agora a notícia de que, por “incompatibilidade”, a Apaa – Associação Paulista dos Amigos da Arte – resolveu ejetar Abel Rocha do cargo que ocupava desde 2004, como diretor artístico e regente titular da Banda Sinfônica do Estado de São Paulo.

Essa eu tenho que confessar que me pegou de surpresa. Abel, que eu saiba, não ganhava salário astronômico, não destratava músico em ensaio, não esmigalhava a paciência dos outros com um ego incomensurável, nem se ausentava longamente de seu posto. Ele vinha dotando a Banda de uma programação dinâmica e imaginativa, e inserindo a orquestra no mapa musical de São Paulo como a principal usina de criação contemporânea da cidade. Transformando uma desvantagem (a falta de repertório tradicional para a formação) em vantagem, ele abriu espaço para compositores e arranjadores atuais exercerem por ali seu talento e sua perícia. E, consequentemente, conseguiu resgatar progressivamente a auto-estima de um grupo que se via como “primo pobre” da Osesp, e que agora vinha encontrando uma identidade e razão de ser.

Mas agora me dizem que vai haver uma tal “reestruturação” na Apaa, que vai ser criada uma orquestra de ópera e que, portanto, têm que demitir o Abel – embora ele seja especializado em ópera, como sabem os que, em Belo Horizonte, puderam conferir seus feitos de excelência em Pelléas et Melisande, de Debussy, no ano passado, e Erwartung, de Schönberg, agora em 2009.

Nos bastidores, vieram me dizer que a real razão da demissão de Rocha é o fato de ele ter sido anunciado como um dos membros da Companhia Brasileira de Ópera, do maestro John Neschling –antigo desafeto da Secretaria de Estado da Cultura.

Nessa hipótese eu prefiro não crer. Porque o comportamento vingativo, se é até engraçado em personagens de histórias infantis, passa a ser no mínimo inadequado quando adotado por gestores públicos.