Diário de Salzburgo 2015 – Parte 1

Dia 1 (24/8): Orquestra Sinfônica de Boston e Andris Nelsons
Cheguei a Salzburgo às 14h, depois de um longo voo com escala em Frankfurt, e com insônia garantida pelo choro de uma criança que durou toda a travessia do Atlântico. A prudência aconselhava descanso, porém Carlos Rauscher, frequentador assíduo do festival, aconselhava o concerto da noite – a Sinfonia nº 6 de Mahler com a Sinfônica de Boston, regida por Andris Nelsons. Como conselho de Rauscher não é coisa que se despreze, o jeito foi enganar o sono atrasado com uma bela ducha, e ir ao Grosses Festspielhaus às 21h.

 

Amigos residentes em Boston haviam me descrito a sinfônica, em anos anteriores, como boa, porém burocrática. Além disso, a orquestra chegara a Salzburgo ainda depois de mim: às 17h do mesmo dia, vinda de Lucerna. Contudo, logo que soou o primeiro e assertivo tema da sinfonia, estava claro que não haveria nada de burocracia ou cansaço naquela noite. Sem empreender uma turnê europeia desde 2007, o respeitável grupo de Massachusetts parecia firmemente empenhado em fazer bonito na casa de verão da Filarmônica de Viena, e consolidar sua reputação no Velho Continente.


O letão Andris Nelsons, de 36 anos, diretor musical da Sinfônica de Boston [foto: Marco Borggreve/divulgação]

Sim, os metais tocaram gloriosamente, mas isso é o que se espera de uma grande orquestra dos EUA. A bela surpresa foi a musicalidade superlativa das cordas, executando Mahler de forma tão idiomática e refinada. E a culpa por boa parte desse resultado deve ser atribuída a Andris Nelsons, o letão de 36 anos que assumiu a direção musical de Boston na temporada 2014-15.

Quase eleito para a Filarmônica de Berlim, Nelsons mostrou não apenas o vigor e a energia aguardados em um músico da sua idade, como ainda um senso arquitetônico e atenção para o detalhe raros em regentes de qualquer idade. Deixe de lado aquele estereótipo das execuções bombásticas e superficiais que marcam as orquestras norte-americanas: com Nelsons, o Mahler de Boston é provido de intensidade emocional, mas não se restringe a som e fúria desprovidos de significado. Pelo contrário: depois de todo o vigor dos dois primeiros movimentos (retomado no quarto), eles entregaram a Salzburgo um andante moderato que parecia vindo de outro mundo musical – o Grosses Festspielhaus mergulhou em uma atmosfera de lirismo noturno e onírico, erigido em nuanças e meios-tons de fraseados e dinâmica. Mal posso esperar para ver, amanhã, o que eles farão com Shostakovich e Richard Strauss – com solos de um certo Yo-Yo Ma.

[O jornalista Irineu Franco Perpetuo viajou a Salzburgo a convite da Casa do Saber e da Latitudes Viagens de Conhecimento]

 


[Veja também]
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Son(ho)s de uma noite de verão: quatro momentos do Festival de Salzburgo, por Leonardo Martinelli
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