Diário de Salzburgo 2015 – Parte 2

Dia 2 (25/8): Yo-Yo Ma, Orquestra Sinfônica de Boston e Andris Nelsons
Se ao tocar a Sexta de Mahler quando seus músicos estavam cansados, de mau humor e ainda travando conhecimento com a acústica da sala, a Sinfônica de Boston já me impressionou, a expectativa cresceu consideravelmente para o dia seguinte, quando, depois de uma boa noite de sono, o grupo se apresentaria com ninguém menos que Yo-Yo Ma.

O tempo passa para todos nós, inexoravelmente, e o cosmopolita violoncelista norte-americano que nasceu em Paris de pais chineses vai se tornar, em outubro próximo, um respeitável sexagenário. Havia por certo muito de cavaleiro, porém nada de triste na figura que subiu ao palco do Grosses Festspielhaus para encarnar o Don Quixote, de Richard Strauss.

Gente com fama e cachê bastante inferior ao de Ma por vezes se acredita no direito de se portar como uma diva da ópera da década de 1950 e tratar os colegas de ribalta como serviçais que devem adivinhar e seguir seus caprichos musicais. O que se viu em Salzburgo, porém, foi algo bem distinto. O violoncelista claramente fazia, em escala orquestral, música de câmara – quer com o violista Steven Ansell (um galhardo Sancho Pança), quer com os outros membros da sinfônica, quer com o incandescente maestro Andris Nelsons. Cada olhar que Ma lançava aos parceiros era dotado de eloquência digna das melhores páginas de Cervantes. Isso para não falar das qualidades que o tornaram objeto de culto nos quatro cantos do planeta: sonoridade generosa e imaculada, perfeição técnica apolínea e expressividade dionisíaca. Qualquer orquestra que não se chame Filarmônica de Viena precisa ser dotada de dose considerável de coragem para tocar a música de Strauss no festival fundado pelo compositor. A cintilante realização dos bostonianos, contudo, revelava menos soberba do que segurança em um fazer musical sólido e bem dirigido.


Yo-Yo Ma foi o solista da Sinfônica de Boston no Don Quixote de Strauss [foto: Marco Borrelli/divulgação]

A excelência foi saudada à moda de Salzburgo: com aplausos calorosos, berros ruidosos, inúmeras chamadas aos músicos de volta ao palco e a plateia pateando sonoramente o piso da sala – porém, sem que ninguém se dignasse a se levantar.

Na segunda parte, infelizmente, não tinha mais Yo-Yo Ma. O interesse, porém, esteve longe de cair. Afinal, o programa trazia a Décima sinfonia de Shostakovich, com a qual não seria exagero dizer que Nelsons tem uma ligação direta – ou quase. Afinal, a obra foi estreada por Ievguêni Mravinski, mentor de Mariss Jansons que, por sua vez, é o mentor do jovem regente letão. Foi como se Nelsons tivesse mergulhado os músicos de Massachusetts nas águas do rio Nevá, e eles emergissem embebidos em décadas de história soviética, falando russo sem sotaque. Toda urgência do avassalador painel sinfônico shostakoviano tomou Salzburgo de assalto e daí, finalmente, o público do festival decidiu que talvez a orquestra ianque merecesse, sim, ser aplaudida de pé.

Pelos corredores da sala, o carioca Marcelo Lehninger, regente associado da orquestra, era só elogios ao colega: “Ele é 100% música, o tempo todo”. Na conversa com o público que teve na manhã do dia seguinte (quarta-feira, dia 26), Nelsons disse que vê como tarefa sua e dos músicos dar 150% de si: “É melhor tomar uma decisão forte e errar do que dar um concerto entediante”.

Embora se defina como tímido, Nelsons chegou a arrancar gargalhadas ao cantarolar, pisar no chão e dar assertivos socos no ar para ilustrar o que seria a diferença entre uma performance italiana e uma interpretação germânica de Puccini. Referiu-se a Mariss Jansons como “o melhor de todos nós” (atribuindo a frase a Simon Rattle), e a Shostakovich como um gênio de envergadura mozartiana: “Claro que a música deles e a época de cada um são muito diferentes, mas, assim como Mozart, tudo que Shostakovich compôs era genial”.

E, por fim, não houve como escapar da pergunta sobre a Filarmônica de Berlim. Na eleição feita pelos músicos em maio, para definir o nome do novo titular da orquestra, seu nome chegou a ser anunciado extra-oficialmente como vencedor – para ser depois desmentido. O pleito revelou uma divisão entre os berlinenses entre Nelsons e o alemão Christian Thielemann. Um mês depois, realizou-se novo escrutínio, do qual o vencedor foi o russo Kirill Petrenko.

Como seu contrato em Boston vai até 2021/22, e o posto em Berlim fica vago em 2018, Nelsons se apressou em dizer que não fez campanha pelo cargo: “Ninguém me perguntou se eu queria ser candidato”, afirmou. Dizer que a filarmônica perdeu com a decisão seria menosprezar o talento de Petrenko. O que é possível afirmar com segurança é que Boston ganha muito ao conservar seu energético e atilado regente titular.

[O jornalista Irineu Franco Perpetuo viajou a Salzburgo a convite da Casa do Saber e da Latitudes Viagens de Conhecimento]


[Veja também]
Diário de Salzburgo 2015 – Parte 1
Diário de Salzburgo 2015 – Parte 3
Diário de Salzburgo 2015 – Parte 4
Diário de Salzburgo 2015 – Parte 5

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