Diário de Salzburgo 2015 – Parte 3

Dia 3 (26/8): Herbert Blomstedt e Orquestra Jovem Gustav Mahler
A Orquestra Jovem Gustav Mahler é um legado de Claudio Abbado à vida musical de Viena. Todo ano, mais de dois mil instrumentistas com idade inferior a 26 anos acorrem a 25 cidades europeias para concorrer ao privilégio de participar desta que, se não for a melhor, pertence certamente ao grupo das mais destacadas orquestras jovens do planeta, criada pelo saudoso regente milanês em 1986.

Sua apresentação acontece no meu palco preferido de Salzburgo: a Felsenreitschule, antiga escola de equitação escavada na montanha em 1693, aproveitada no festival pelo visionário Max Reinhardt pela primeira vez em 1926, e reformada em 1969/70. Fãs do filme A noviça rebelde não terão dificuldade em identificá-la: é lá que acontece a cena em que a família Von Trapp canta Edelweiss.

Desta vez, nada de filme, mas gravação: tanto no ensaio da manhã quanto no concerto da noite, o palco está tomando de microfones, que pretendem transformar em CD a parceria da orquestra com o maestro Herbert Blomstedt.


Herbert Blomstedt aplaude os músicos da Orquestra Jovem Gustav Mahler [foto: Marco Borrelli/divulgação]

É a experiência encontrando a juventude: nascido nos EUA mas criado na Suécia, terra de seus pais, Blomstedt acaba de completar 88 anos. Mantém a silhueta elegante, as sobrancelhas espessas, mostrando-se leve, vivaz, gentil e comunicativo no ensaio de um programa feito sobre medida para agradar: a Sinfonia nº 39 do mais ilustre filho de Salzburgo, um certo Wolfgang Amadeus Mozart, e a Sinfonia do Novo Mundo, de Dvorák.

Mandatos à frente de orquestras dos dois lados do Atlântico, como a Staatskapelle Dresden, a Gewandhaus de Leipzig e a Sinfônica de São Francisco, consolidaram a reputação internacional de Blomstedt. Sua abordagem mozartiana está longe de ser “de época”, mas não carece de equilíbrio ou leveza. Sem batuta, e com o efetivo instrumental reduzido (algo que as orquestras brasileiras ainda se recusam a fazer), Blomstedt enfatizou algumas das características mais sedutoras da partitura mozartiana, como o afeto Sturm und Drang do andante con moto, ou o adorável solo de clarinete do Ländler que se encontra no trio do minueto (terceiro movimento).

Na segunda parte, uma orquestra adequadamente maior reuniu-se para executar um dos itens do repertório sinfônico mais queridos do grande público: a Nona sinfonia de Antonín Dvorák, conhecida como Do Novo Mundo por ter sido escrita nos EUA, quando o compositor tcheco se encontrava em Nova York, na qualidade de diretor do conservatório local, em 1893.

Devo confessar que já ouvi essa sinfonia muito mais vezes do que deveria ou gostaria – via de regra, massacrada por nossas orquestras. Blomstedt – agora de batuta em punho –, porém, me surpreendeu. Já no ensaio, em vez de massa sonora, priorizou o trabalho de detalhes, de rítmica e de fraseado – o que, no concerto, traduziu-se em uma leitura matizada e até sutil, na medida em que esse adjetivo é aplicável à obra de Dvorák. Talvez não se trate da visão mais empolgante possível da Do Novo Mundo, mas – pelo menos para o meu gosto – valeu para o frescor.

E, de qualquer forma, a Orquestra Jovem Gustav Mahler conta com um carinho especial do público de Salzburgo. Basta se perfilarem no palco, antes de soarem uma nota, e seus integrantes recebem a mais calorosa das ovações. Nem foi necessário o bis – Dança eslava nº 1, também de Dvorák – para o público patear o piso da Felsenreitschule de modo a abalar as estruturas da sala. Cada líder de naipe, ao se erguer individualmente para agradecer os aplausos, era saudado com urros habitualmente só reservados aos artilheiros do FC Salzburg na Champions League. O público só não se permitiu aplaudir de pé – um excesso que os frequentadores do festival só cometem em situações raríssimas e pontuais.

[O jornalista Irineu Franco Perpetuo viajou a Salzburgo a convite da Casa do Saber e da Latitudes Viagens de Conhecimento]


[Veja também]
Diário de Salzburgo 2015 – Parte 1
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Diário de Salzburgo 2015 – Parte 4
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