Do pan-americanismo à pós-modernidade - ou de Carpentier a Gilberto Mendes e John Adams

por João Marcos Coelho 24/10/2008

Não se passa batido pela leitura, quase que em seqüência, de duas obras-primas do escritor cubano Alejo Carpentier, recentemente lançadas no Brasil ("Os Passos Perdidos", Martins Editora; "Concerto Barroco", Companhia das Letras). Além da qualidade extraordinária de sua prosa, é inevitável a simpatia e solidariedade pelo tenaz combate de Carpentier por uma arte latino-americana. E sua matriz, sabe-se, não foram as artes plásticas, ou a literatura. Mas a música. Ele foi crítico musical por bom tempo, assim como engenheiro de som de gravações de música clássica nos anos 30, em Paris. Amigo de vários compositores, entre eles Villa-Lobos, Carpentier transformou em sua a bandeira de luta por uma música pan-americana, com identidade própria, desvinculada das amarras européias. Tanto que, por exemplo, detestava a fase neoclássica de Villa-Lobos, porque enxergava ali apenas um mero transplante das formas européias.

O bom de Carpentier é que ele não fala de música com superficialidade. Fala como quem a conhece a fundo, de verdade. E seu ideário não é sumariamente nacionalista - embora tivesse também este viés, pois ele teve seu período de formação numa época embebida pelos valores nacionalistas.

Quem sabe sua maior contribuição para os músicos seja o conceito de que a linguagem e as formas gerais desta arte pouco mudaram num amplo arco histórico, de Vivaldi e Haendel, no século 18, a Stravinsky, mais de 250 anos depois. "Na música que chamamos de ocidental, desde o século 16 até hoje", declarou numa entrevista rara, "passam as gerações, mudam os estilos, ampliam-se as obras em proporções, outras se reduzem, há épocas dominadas por um certo miniaturismo (o de Webern) e gigantismo (o de Mahler). Mas os que privam da intimidade dos compositores e os viram trabalhar sabem que se há uma arte em que as preocupações de fundo mudam pouco, esta é a música. Na música, trata-se de se especular sobre este valor fundamental que é o transcurso do tempo. O espaço não existe; existe apenas a passagem do tempo."

Perdoem a longa citação, mas ela, de certo modo, prefigura uma postura pós-moderna - sim, é preciso usar esta expressão, apesar da hostilidade que a cerca - tão comum hoje em dia. No DVD "Gilberto Mendes - Uma Odisséia Musical", o compositor reconhece que voltou de Darmstadt impressionadíssimo com o que ouvira de Berio, Stockhausen, Nono e Boulez. "Mas nenhum de nós [ele, Willy, Damiano Cozzella, Júlio Medaglia] queria transplantar aquilo por aqui."

Com uma atitude muito parecida, o compositor norte-americano John Adams - em outro excelente DVD, "A Portrait and a Concert of American Music", Arthaus - diz a mesma coisa. Ou seja: "Para mim, a música é acima de tudo comunicativa." Mais: Adams diz que, como músico americano, usa todo tipo de fontes musicais em sua criação. De novo, muito parecido com Gilberto Mendes, que freqüenta todas as músicas - "acho que gosto até da música ruim" -, do bolero às big bands dos anos 30, de Hollander às trilhas sonoras do cinema americano.

O melhor: tanto Gilberto como Adams, sem o menor preconceito, retrabalham esses materiais sonoros ecléticos e fazem deles uma seiva riquíssima para suas criações. Quem duvidar, que ouça, do brasileiro, a recente "Ratros Harmônicos" e tantas outras obras dos últimos quarenta anos. De Adams, basta ouvir sua última ópera, "A Flowering Tree", composta em 2006 por encomenda do Festival de Salzburgo em tributo à "Flauta Mágica" de Mozart. Ou então encantar-se com o modo como ele captura a essência do jazz em sua música para piano, que, aliás, cabe num único CD lançado pela Naxos no ano passado. O pianista Ralph van Raat interpreta as excepcionais "Phrygian Gates", "American Berserk", "China Gates" e "Hallelujah Junction" (esta última ao lado de Maarten van Veen).