Dudamel e sua orquestra eletrizante

Músicos grudados nas cadeiras com ar de enfado, mirando com um misto de desdém e ceticismo a pessoa que agita a batuta diante de si. A dinâmica oscila sempre em torno de mezzo forte, e não se leva em conta intenção musical, expressividade, comunicação com o público, etc: se a orquestra conseguir tocar razoavelmente junto e moderadamente afinada, o objetivo foi atingido.

Quantas vezes a gente não depara com esse tipo de cena em nossa vida musical? Mesmo com músicos bem pagos e regentes de renome, a pasmaceira e o burocratismo rondam nossas salas de concerto com frequência maior do que gostaríamos de admitir.


Gustavo Dudamel [foto: divulgação]

Talvez por isso eu não tenha tido o mínimo pudor em urrar junto com o público que lotou a Sala São Paulo nos dois programas distintos que o carismático Gustavo Dudamel fez com seus incríveis comandados da Orquestra Simón Bolívar, da Venezuela.

Músicos sentados nas beiras das cadeiras, “mandando ver”, com os olhos grudados no maestro, sem medo de extremos de dinâmica e tempo – mais do que isso, sem medo de serem felizes. E, no pódio, um músico superlativo, que não parece tratar a orquestra como subordinados a serem esmigalhados por seu ego e salário gigantescos e, sim, como companheiros de viagem, parceiros de fazer artístico.

Vi vários de nossos músicos de orquestra nas apresentações, e os que vieram conversar comigo não pareciam menos eletrizados do que eu. Os mais empolgados até diziam que estavam dispostos a tocar de graça em uma orquestra daquelas, o que me fez perguntar: por que não conseguimos esse tipo de fazer musical saudável por aqui?

Porque me parece inegável que, entre trancos e barrancos, idas e vindas, estamos vivendo uma espécie de ciclo virtuoso das orquestras brasileiras desde o final dos anos 90. Claro que ainda há muito a ser feito, mas, de qualquer forma, desde a reformulação da Osesp e da criação da Amazonas Filarmônica, estamos vivenciando fenômenos auspiciosos como a Filarmônica de Minas Gerais, a Sinfônica de Sergipe e um desejo generalizado das orquestras mais antigas de várias regiões do Brasil de emularem o padrão de excelência estabelecido na Sala São Paulo.

O outro lado da moeda é que as relações entre direção e músicos não parecem ter melhorado junto com o incremento de remuneração destes últimos. A recente “limpeza étnica” acontecida em uma OSB em interminável crise é o exemplo mais clamoroso; os que estamos em São Paulo podemos nos lembrar de episódios menos dramáticos, mas não menos sintomáticos, como a rebelião em massa da Orquestra Sinfônica Municipal contra Rodrigo de Carvalho, ou o aceleradíssimo desgaste de Yan Pascal Tortelier em seu breve mandato-tampão na Osesp.

Sim, é verdade que esse tipo de conflito é inerente a qualquer relação trabalhista, como também é verdade que uma certa mentalidade burocrática e refratária a inovações e à cobrança de excelência se incrustrou em várias de nossas instituições sinfônicas.

Por outro lado, a velha atitude de lidar com os músicos como um “bando de vagabundos” (quantas vezes não ouvimos essa expressão nos bastidores?) que precisam ser “forçados” a trabalhar parece não apenas arcaica, extemporânea e desumana, como francamente contraproducente.

Que tal tentarmos tratar os nossos músicos não apenas como adversários, mas como parceiros, co-gestores de nossas orquestras, co-responsáveis por seus sucessos e fracassos? O processo está longe de ser simples, é tortuoso e arriscado, e não tem uma receita pronta para ser implementada imediatamente. Mas, caso dê certo, daí alguma vez, ao ir a um concerto, consigamos ver nossos músicos com os olhos brilhando ao tocar, em cima do palco, e não apenas na plateia, ao aplaudir alguma orquestra estrangeira.