E se Mário tivesse sido ministro da Cultura?

por João Marcos Coelho 21/10/2015

Está se falando muito de Mário de Andrade a propósito dos 70 anos de sua morte. Ele merece. Merece até que se fale mais e sempre deste visionário genial ao qual devemos a institucionalização da vida musical em São Paulo nos anos 1930, através da criação da orquestra sinfônica e dos demais corpos estáveis (coro, quarteto de cordas e até um trio de piano e cordas) do Theatro Municipal de São Paulo, além da Discoteca Pública, do Congresso da Língua Falada... Isso e muito mais em cerca de três anos à frente do recém-criado Departamento de Cultura da Prefeitura de São Paulo no final de 1934.

Pouca gente sabe o que mostra com riqueza de detalhes o livro recém-lançado pela Imprensa Oficial do Estado Me esqueci de mim, sou um departamento de cultura, organizado por Carlos Augusto Calil e Flávio Rodrigo Penteado, em primorosa edição crítica com fac-símiles de documentos e textos de Mário daqueles anos frenéticos em que montou a estrutura dos mecanismos de institucionalização da música, primeiro em São Paulo, depois no Brasil inteiro. Fábio Prado, então prefeito de São Paulo, era candidato a presidente pela oposição democrática nas eleições seguintes, abortadas por Getúlio Vargas em 1937 em troca do que chamou de Estado Novo, mais conhecido como ditadura.

O fato é que o projeto cultural – e principalmente musical – marioandradino fazia de São Paulo o piloto de um Instituto Brasileiro de Cultura, uma espécie de Ministério da Cultura que Fábio Prado criaria e Mário ocuparia se eleições houvessem acontecido e se fosse presidente.

Por isso, vale muito a pena conhecer o livro organizado por Calil e Penteado. Se você quer imaginar como teria sido a vida cultural – e sobretudo musical – brasileira de lá para cá, embarque nos textos do Mário diretor do Departamento de Cultura do município.

Afinal, entre os anos 1920 e 1940, pareciam intransponíveis as distâncias entre o Brasil e a América Latina, em termos culturais. Não para Mário de Andrade. Ao pensar em Brasil, ele pensou nas músicas populares, saiu do gabinete, viajou ao nordeste e mandou equipe especializada para recolher melodias folclóricas na região. E, imagino, se tivesse sido ministro da Cultura, com certeza faria o mesmo com a América Latina. Exploraria e estabeleceria contatos com as riquíssimas músicas folclóricas e populares da América Latina. Um vínculo que ainda nos soa estranho – bem mais do que nos atrelarmos às decantadas matrizes europeias.

Esta longa introdução serve para convidar vocês a ouvirem o cantor Renato Braz e o quarteto de violões Maogani no recém-lançado CD Canela, uma incrível e multicolorida viagem musical pelas músicas populares da América Latina.

A música popular da América Latina foi construída com ingredientes de diversas procedências, que misturados às cores e ao jeito de cada povo fizeram surgir uma infinidade de ritmos e gêneros. Um roteiro musical que sai do Brasil e passa pela Argentina, Chile, Paraguai, Peru, Colômbia, Venezuela e Cuba – muitas destas canções e melodias constituem produtos das matrizes que encantaram Mário de Andrade, em seu ideário de construção de uma música nacional brasileira a partir da realidade latino-americano – distanciando-se das matrizes europeias.

Confira acima o vídeo de La jardinera, de Violeta Parra, interpretada por Braz e o Quarteto Maogani. Pena que as outras pérolas garimpadas pelos cinco neste CD precioso gravado em Lima, no Peru, não estejam disponíveis no YouTube. Não tem problema: compre ou baixe o CD. Lá estão Pajarillo verde, canção tradicional venezuelana; a barcarola Julia Florida, de Agustín Barrios; e a emocionante Oración del remanso, onde a voz privilegiada de Renato é acompanhada pelos violões precisos de Maurício Marques e Sergio Valdeos.


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• O CD Canela está disponível na Loja CLÁSSICOS

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