Entre o imaginário e o real, a beleza de um piano contemporâneo brasileiro

por Leonardo Martinelli 13/12/2011

Timbres, texturas, gestos e sonoridades. Colocar a música palavras nunca foi uma tarefa fácil, e para isso é quase inevitável recorrer às metáforas, quando não evocar uma dimensão sinestésica na qual não raro a música flerta com o tato, cheiros e cores... E é esta variedade de sentidos que o repertório do álbum Imaginário evoca ao longo da escuta de sete obras, distribuídas ao longo de onze faixas.

Lançado no início deste mês, Imaginário é além de uma preciosa coletânea de belíssimas obras do mais recente repertório do piano contemporâneo brasileiro (a maioria delas foi composta entre 2009-2010), um registro da arte de uma grande intérprete deste repertório, Lidia Bazarian. Há anos trilhando a difícil estrada do repertório contemporâneo, a pianista foi a responsável pela estreia de inúmeras peças de compositores brasileiros, tendo atuado no lendário Grupo Novo Horizonte e atualmente integra a Camerata Aberta. Mais do que uma intérprete, Bazarian realiza um trabalho de colaboração juntos aos compositores, e é justamente esta faceta que pode ser conferida em Imaginário.


Lidia Bazarian [foto: divulgação]

Concebido em conjunto com os jovens compositores Valéria Bonafé e Gustavo Penha, além de registrar a arte de Bazarian Imaginário documenta a atuação criativa de um círculo de amizades, no qual os “alunos” Bonafé, Penha e Tatiana Catanzaro estabelecem um diálogo com os professores Silvio Ferraz, Rogério Costa, Marcos Branda Lacerda e Marisa Rezende. As aspas aqui servem para relativizar o status destes jovens compositores, que na verdade dialogam em pé de igualdade, fator este que faz de Imaginário um projeto coeso e consistente.

Musicalmente falando, as obras deste álbum exploram uma faceta mais gestual e elegante da escrita do piano moderno – eventualmente, apenas a peça de Catanzaro investe numa “retórica da violência” na estonteante Kristallklavierexplosionsschattensplitter – e de certa forma é bonito testemunhar a assimilação de forma mais segura de certas ideias e sonoridades antes mais experimentais em mestres como Boulez, Berio e Messiaen, ou mesmo Schoenberg (que diga Penha com seu interessante jogo de quartas justas na obra Nenhum, nenhuma). Porém, nada aqui se limita a uma mera reverberação de um pretérito próximo. Fez-me especial gosto o movimento Odradek, parte Do livro dos seres imaginários, de Bonafé, na qual uma insistente sonoridade percussiva vai se projetando por detrás das notas entoadas por Bazarian.

No geral, um lindo álbum, com um sabor ligeiramente impressionista, no qual um complexo diálogo musical é estabelecido entre suas obras por meio do preciso e musical trabalho de uma pianista que tem muito que dizer.