Fabio Zanon convence no violão e na batuta

Todo mundo sabe que Fabio Zanon, que completou no último mês de março 50 primaveras muito bem vividas, é um violonista de nível internacional, capaz de destrinchar as mais complexas partituras de qualquer dificuldade técnica ou período da história da música. Mas ele rege? E rege direito? Foi para tirar a prova dos nove que me encaminhei à Sala São Paulo no último domingo, 4 de setembro.

 

Zanon é um polímata, cujos interesses culturais transcendem em muito a música. Analogamente, seu voraz apetite musical supera largamente os limites de seu próprio instrumento. Tudo isso, aliado a sua suprema musicalidade e à maturidade conferida pelos anos, parece apontar para um líder fadado para o pódio. E, efetivamente, quando o vi reger a ópera O homem que confundiu sua mulher com um chapéu, de Michal Nyman, no Teatro São Pedro, a impressão foi das mais favoráveis.


Fabio Zanon [Foto: Revista CONCERTO / Carlos Goldgrub] 

Porém, a regência está longe de ser uma ciência exata, e a ópera do São Pedro aconteceu nos idos de 2006. Continuava, assim, intrigado: como ele dirigiria um programa sinfônico completo no palco da Sala São Paulo?

Ajudou muito o fato de ter como parceira a Sinfônica da USP, orquestra cujo alto nível técnico, inteligência de programação e relevância de solistas e maestros convidados já vem há algum tempo reclamando uma atenção mais cuidadosa por parte de crítica especializada e público. Além disso, o repertório possuía forte afinidade com Zanon.

Professor Visitante da Royal Academy of Music, em Londres, ele passou na capital britânica os anos decisivos de sua formação pessoal e musical. Assim, nada mais natural do que se sentir em casa ao dirigir uma sinfonia de Haydn escrita em Londres, e uma de Mendelssohn inspirada pelas paisagens da vizinha Escócia.

Se hoje em dia a surpresa que deu o apelido pelo qual é conhecida a Sinfonia nº 94, de Haydn, dificilmente ainda vai pegar alguém desprevenido (afinal, já se vão mais de 200 anos que sabemos do súbito fortíssimo que prorrompe, aparentemente do nada, no compasso 16 do segundo movimento), há ainda muito para se espantar na retórica bem-humorada de um compositor que, aos 60 anos de idade, encontrava-se no mais consciente domínio de seus recursos. Zanon obviamente saboreou cada compasso da sinfonia, tomando cuidado em, por exemplo, caracterizar de modo distinto as diversas variações que constituem seu Andante. Para o público, foi uma regência quase didática: a cada momento que Haydn se saísse com uma modulação inesperada, um chiste de fraseado ou um corte abrupto, o maestro estava lá para assinalar.

Meio século separa a Sinfonia Surpresa da Sinfonia nº 3 - “Escocesa”, e Zanon, se dirigira a transparente partitura de Haydn apenas com as mãos, optou por uma batuta para evocar as texturas mais cheias e opulentas de Mendelssohn. Música triunfante e arrebatadora, mas sem excessos de grandiloquência que descambassem para a barulheira: foi bonito, por exemplo, ouvir as trompas soarem de forma gloriosa no movimento final, porém em harmonia e equilíbrio com a sonoridade redonda que emanava dos outros naipes da orquestra.

O caminho que levou de Haydh a Mendelssohn passou por Radamés Gnattali: entre uma sinfonia e outra, Zanon solou e dirigiu, do banquinho, o Concerto nº 4 à Brasileira, do compositor gaúcho. Se, em seu tempo, Gnattali podia ser criticado e até vaiado pelo sabor inequivocamente “crossover” de suas obras, hoje parece ter chegado a época ideal para sua recepção, já que dilui as barreiras entre “erudito” e “popular” de um jeito buscado por muitos criadores de ambas as áreas.

O problema é que, quando nossos autores “eruditos” arriscam essa mistura, não raro produzem um “samba de branco” artificial, enquanto os “populares” costumam se intimidar diante do aparato sinfônico e criar obras insossas, de um kitsch atroz. Como podemos ouvir, por exemplo, no segundo movimento do concerto, um flerte com Gershwin e Pixinguinha, Gnattali tinha a mistura como algo orgânico e intrínseco à sua poética, marca de sua identidade e originalidade. Com o apuro e intimidade com o universo estético do compositor que demonstrou na Sala São Paulo, Zanon bem que poderia fazer a obra, escrita em 1967, e dedicada a Laurindo de Almeida, chegar ao disco. Daí quem sabe nossas orquestras acordassem e finalmente programassem com maior frequência uma obra fadada a conquistar os corações de todos que a ouvem.

Aliás, as orquestras também poderiam acordar para o fato de que temos em Fabio Zanon um regente para levar a sério. De minha parte, fiquei com vontade para ouvir, realizado no palco, o que ele tem a dizer sobre outras partituras sinfônicas.