Festival Leo Brouwer celebra a riqueza do violão

por Camila Frésca 28/12/2009

No mês de dezembro, quase encerrando a temporada musical e em meio ao clima festivo e à correria que tumultua a vida da maioria das pessoas, o público de São Paulo teve o privilégio de conferir as atividades do segundo Festival Internacional de Violão da USP/ Festival Leo Brouwer.

Talvez o fato mais importante relacionado ao evento é que ele dá o devido espaço ao violão. Ao mesmo tempo em que homenageia um expoente internacional do instrumento (o compositor cubano Leo Brouwer, presente nas duas edições), congrega excelentes músicos brasileiros, dando oportunidade para que o público os conheça. O violão, instrumento tão popular por aqui, além de contar com toda uma rica tradição, tem hoje entre nós um expressivo número de primorosos intérpretes, compositores e luthiers. Isso faz com que o Brasil se destaque internacionalmente na área, mas o violão continua injustamente deixado de fora da maioria de nossas temporadas. Afinal alguém já viu alguma orquestra programar mais do que um concerto contando com um violonista convidado em toda sua temporada? Ou uma entidade internacional promover um recital do instrumento?

É nesse contexto que o Festival Leo Brouwer ganha importância ímpar, e é ótimo ver o evento se tornando regular. Esta segunda edição, que aconteceu entre os dias 6 e 13 deste mês que já se finda, teve master classes, lançamentos de CDs e livros, palestras e, claro, diversos recitais. Dentre esses – que contaram com artistas do nível de Sergio Assad e Egberto Gismonti, e incluíram estreias mundiais e primeiras audições brasileiras – um destacou-se tanto por sua qualidade intrínseca quanto por seu valor simbólico. Dia 9 de dezembro, um concerto no Anfiteatro Camargo Guarnieri, na USP, reuniu diversas gerações do violão brasileiro numa noite memorável. O objetivo era celebrar o aniversário de dois grandes nomes do instrumento: o colecionador Ronoel Simões, responsável por preservar boa parte de discos, livros e informações ligadas ao violão brasileiro do início do século XX; e Geraldo Ribeiro, virtuose apelidado de “Segovia brasileiro” e artista fundamental não apenas como compositor mas sobretudo como concertista, músico que fez transcrições importantes (como da obra de Johann Sebastian Bach), que resgatou a obra de violonistas populares, como Garoto, e que realizou marcantes estreias e gravações de obras.

Se os 90 anos de Ronoel o impediram de assistir à homenagem, Geraldo Ribeiro comemorou seus 70 mostrando um pouco daquilo que o consagrou. Embora as mãos não possuam mais a firmeza e destreza de outrora, foi fácil perceber algumas das qualidades que o tornaram célebre, como a beleza do som e a interpretação pessoal e de incrível naturalidade. Além dele, subiram ao palco alguns dos mais brilhantes violonistas brasileiros da atualidade, que se revezaram entre obras do próprio homenageado e autores marcantes em sua carreira. Paulo Martelli mostrou, no violão de onze cordas, uma interpretação sobre-humana de suas transcrições de peças para violino solo de Bach; além da difícil Sonatina do sudeste, de Ribeiro, Paulo Porto Alegre tocou obras de Garoto; Fábio Zanon mostrou a excelência de sempre em obras de Ribeiro, Augustin Barrios e Ascendino Theodoro Nogueira, compositor com quem Geraldo Ribeiro colaborou intensamente. O recital encerrou-se com o carismático Duo Siqueira Lima. Novíssima geração do violão brasileiro, Cecília Siqueira e Fernando Lima tocam com frescor e envolvimento contagiantes e colocam sua técnica excepcional a serviço do repertório clássico e popular com a mesma naturalidade, desfazendo a velha “barreira” entre o erudito e o popular que, ainda que muitos queiram derrubar, nem todos estão aptos a fazê-lo.

Cecília Siqueira e Fernando Lima, do Duo Siqueira Lima, que participou da última edição do Festival Leo Brouwer. [Foto: divulgação, Anton Zabrodsky]

Se durante o ano nem sempre o violão ganha o destaque que merece, parece que agora ele passará a “se vingar” no mês de dezembro, quando acontece o Festival Leo Brouwer.