Festival Vermelhos: música na natureza

por Nelson Rubens Kunze 13/09/2016

Terminou domingo, dia 11 de setembro, em Ilhabela, no litoral paulista, o II Festival Vermelhos de Música e Artes Cênicas. Uma programação diversificada e de altíssimo nível – basta dizer que participaram artistas da envergadura de Antonio Meneses, Jean Louis Steuerman, Rosana Lamosa, Julio Medaglia e Fabio Zanon (para ficarmos na área dos eruditos) – movimentou a Baía dos Vermelhos, assim chamada em razão dos peixes vermelhos de suas águas. Mas não se vê muito do mar. O Centro Cultural Vermelhos está situado dentro de uma extensa área florestal e apenas em alguns pontos mais elevados, por entre as árvores, se avista o Canal de São Sebastião.

 

Idealizado por Samuel MacDowell de Figueiredo – um advogado amante da música e das artes –, o Centro Cultural Baía dos Vermelhos quer se transformar em um importante polo para a divulgação e difusão de arte, bem como para o ensino e promoção sociocultural da população local. O complexo já tem dois módulos praticamente terminados: o Teatro de Vermelhos, uma impressionante estrutura metálica suspensa, aberta dos lados, que abriga um grande palco e uma plateia para 900 espectadores; e o Anfiteatro da Floresta, um palco menor, coberto, com 220 assentos ao ar livre, entre as árvores, que acompanham a topografia do terreno. O Festival Vermelhos, este ano em sua segunda edição, é a atividade de maior destaque e repercussão do Centro Cultural. Centenas de pessoas – residentes, turistas e pessoas que vieram de São Paulo especialmente para a ocasião – puderam desfrutar dos lindos dias quase primaveris com muita boa música.

No Anfiteatro da Floresta apresentou-se música instrumental brasileira: inicialmente, um show do Grupo Pau Brasil, formado por Nelson Ayres (piano), Teco Cardoso (sax e flauta), Rodolfo Stroeter (contrabaixo), Paulo Belinatti (violão e guitarra) e Ricardo Mosca (bateria), com um programa que abrangia de Ary Barroso e Lamartine Babo a Villa-Lobos; e na segunda parte, um recital de piano solo do excepcional músico e improvisador André Mehmari. Não há o que dizer dessas excelentes apresentações, a não ser registrar novamente o seu absoluto alto nível.


André Mehmari em apresentação no Anfiteatro da Floresta [Foto: Revista CONCERTO]

Já o grande Teatro de Vermelhos abrigou as apresentações de caráter erudito. E aqui, além da qualidade da programação, o que surpreendeu foi o resultado acústico do novo teatro, muito satisfatório. Assisti, primeiro, à Camerata Baldini, dirigida pelo violinista Emmanuele Baldini, que contou com a participação, como solistas, da soprano Rosana Lamosa e do pianista Jean Louis Steuerman. É verdade que se perderam sutilezas musicais da refinada interpretação de Lamosa e Steuerman para canções, de apenas voz e piano, de Schumann, Brahms e Richard Strauss – mas essa formação e repertório são quase um extremo de nuanças de timbre, articulações e dinâmicas. Já a Camerata, com seus 12 integrantes, soou bem e equilibrada no amplo espaço, que projetou com propriedade também o violino solista de Baldini.


Estrada une o Anfiteatro da Floresta ao Teatro de Vermelhos, distantes cerca de 500 metros um do outro [Foto: Revista CONCERTO]

A impressão de que o espaço é mesmo adequado para maiores volumes sonoros ficou ainda mais reforçada com a apresentação da Orquestra Jovem do Estado de São Paulo, que encerrou o Festival na tarde de domingo. Dirigida por Cláudio Cruz, a Ojesp tocou a abertura de A força do destino, de Verdi, o Concerto para violoncelo de Schumann – com o violoncelista Antonio Meneses – e as brilhantes e virtuosísticas Danças sinfônicas de Rachmaninov.


O Teatro de Vermelhos antes da entrada do público, para o concerto da Orquestra Jovem [Foto: Revista CONCERTO]

Já virou lugar comum falar do extraordinário trabalho desenvolvido por essa orquestra jovem bem como falar da maturidade artística atingida pelo violoncelista Antonio Meneses (aliás, documentados no CD presente que a Revista CONCERTO distribui este ano para seus assinantes). Ambos estavam em uma ótima tarde. E, no repertório sinfônico, o Teatro de Vermelhos evidenciou de forma inequívoca seu potencial, fazendo soar de maneira equilibrada e coesa os diversos naipes orquestrais.

O Festival Vermelhos explora a ligação das artes com a natureza. Com músicos dessa categoria integrados ao público em um espaço inserido em um meio ambiente de grande exuberância tropical, tem-se a sensação de um concerto ao ar livre – com sua informalidade e a interferência dos ruídos da natureza. Uma perfeita interação entre música e natureza, com todos seus desdobramentos sensoriais e emocionais...

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