Fiquem de olho nesta jovem tribo eletroacústica

por João Marcos Coelho 01/10/2014

A novíssima geração de compositores brasileiros, entre 25 e 30 anos, vem realizando uma “ocupação artística” de São Paulo: lançou no último dia 10 de setembro no Centro Cultural São Paulo a revista Linda e promoveu a estreia mundial de oito obras.

Antes do “concerto” propriamente dito, Inumano de Fernando Gregório, James Wilkie e Tiago de Mello, ocupou o foyer em frente à bilheteria no CCSP. É uma criação coletiva do inglês Wilkie com os dois paulistas, feita por Skype, que resultou num ritual performático-musical de 30 minutos, onde a abstração numérica dos ataques às Torres Gêmeas (datas, mortos e feridos) e imagens de arquivo são base da criação.

Revista? Concertos? Talvez estas não sejam as melhores palavras para entender os eventos do NME – Nova Música Eletroacústica. O coletivo comemora o terceiro aniversário sob o guarda-chuva temático “a convivência humana na criação artística”.

Antes que você se pergunte “o que é eletroacústica?”, seu idealizador Tiago de Mello, 25 anos, vai te deixar despreocupado. A primeira frase do editorial inaugural de Linda é: “Uma revista para a cultura eletroacústica, seja lá o que for, exatamente”. Na capa, a definição “revista sobre a tal cultura eletroacústica”.


Luis Felipe Labaki, Tiago de Mello e Julia Teles, organizadores do Nova Música Eletroacústica [foto: divulgação]

Liberdade é a palavra-chave. Liberdade de fazer música usando chás diversos como inspiração e os servindo nas apresentações, por exemplo, tornando atraentes as em geral tediosas noitadas eletroacústicas onde nada de visual acontece no palco.

Os “concertos” de setembro e outubro reúnem 33 artistas de vários países, que criaram nos últimos três meses, após serem sorteados em trincas, onze obras inéditas, entre esculturas sonoras, videoinstalações, intervenções urbanas e performances sonoras.

A revista, de 140 páginas, será vendida a R$ 15 (disponível no site da publicação: linda.nmelindo.com), e de veteranos só tem o radical Lívio Tragtenberg falando sobre suas orquestras de rua; e entrevista com Fabio Zanon sobre o papel dos festivais de música na formação de jovens músicos.

Em ambos os casos, leitura obrigatória, pois Tragtenberg e Zanon fazem parte do ótimo porém cada vez mais escasso grupo dos músicos que são duplamente notáveis: 1) pensam seu ofício com inteligência e adequação; 2) e, por isso mesmo, mantêm a adrenalina a mil. Como, justamente, esta moçada que está renovando de modo originalíssimo a cena da música eletroacústica atual.

Oitenta por cento das 140 páginas da revista são ocupados com artigos, provocações e sacadas de integrantes e simpatizantes do NME. É não só bom como necessário olhar para esta geração de músicos que têm sangue nas veias.

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