Fórum Ircam Brasil – Parte 2

por Camila Frésca 06/11/2015

Pesquisas postas em prática e um concerto surpreendente
O segundo dia do Fórum Ircam, na quinta, dia 5, em São Paulo, se iniciou com uma conferência de Jérôme Combier. O compositor francês, diretor do Ensemble Cairn, apresentou no concerto de quarta-feira a peça Dawnlight, para flauta, piano, violino, violoncelo e eletrônica. Em sua fala, explicou como se deu o processo de composição, desde suas concepções estruturais para a peça, as opções timbrísticas, chegando até à forma como a eletrônica interage com a parte instrumental. A peça pode ser ouvida no Soundcloud do Ensemble Cairn.

Após a primeira conferência, o Fórum Ircam se desdobrou em atividades paralelas. No primeiro dia, as diferentes comunicações apresentaram projetos, programas e softwares desenvolvidos pelo instituto, como Openmusic, Orchid, OMax e os Smart Instruments. No segundo, compositores e instrumentistas puderam “botar a mão na massa”, experimentando dois desses programas em workshops que correram paralelamente.

Adrien Mamou-Mani comandou um grupo com violões, um cavaquinho, um violoncelo, um contrabaixo e dois cantores nos Smart Instruments. Mamou-Mani é pesquisador do Ircam e comanda o projeto de pesquisa dedicado ao tema. No instituto, eles concebem instrumentos híbridos, baseados em instrumentos acústicos de alta qualidade. Feitos em colaboração com fabricantes, esses instrumentos possuem componentes eletroacústicos embutidos, como sensores e placas eletrônicas. Dessa forma, o instrumento acústico aproveita seu próprio sistema de amplificação, e irradia uma mistura de seu som acústico e do som feito a partir de tratamentos eletrônicos. Mamou-Mani trouxe um violão com essas características da França, mas trouxe também pequenos equipamentos a serem acoplados nos instrumentos tradicionais. Assim, os participantes do fórum que trouxeram seus instrumentos se reuniram no Studio PANaroma e passaram parte da manhã e toda a tarde experimentando sons e recursos da tecnologia.


Mamou-Mani (em pé) realiza workshop sobre Smart Instruments [fotos: Camila Frésca/Revista CONCERTO]

Ao mesmo tempo, outro pesquisador do Ircam, Mikhaïl Malt – brasileiro nascido no Egito e radicado em Paris – falou sobre uma ferramenta de composição que conhece profundamente, o OMax. Em seu concorrido workshop, Malt explicou que OMax é um ambiente de software que aprende em tempo real características típicas do estilo de um músico e toca junto com ele de forma interativa, ou seja, improvisando a partir do material fornecido pelo instrumentista ou cantor.


Público participa do workshop do pesquisador Mikhaïl Malt, do Ircam, sobre a ferramenta de composição OMax

Simultaneamente a esses dois workshops, uma série de comunicações acontecia no Teatro Maria de Lourdes Sekeff, da Unesp. Nelas, pesquisadores do Ircam, além de brasileiros e estrangeiros que trabalham com sons eletrônicos fizeram breves apresentações de seus temas de pesquisas. Tais temas versam tanto sobre obras eletroacústicas que se utilizam de tecnologias específicas quanto a interfaces musicais feitas para interagir com praticantes de meditação, como foi o caso do trabalho do italiano Michele Zaccagnini: por meio da interface musical MI-IM, o comportamento do praticante influencia a música, gerada por algoritmo, ao mesmo tempo em que o praticante é influenciado por ela.

Finalmente, o segundo dia do Fórum Ircam encerrou-se com mais um concerto no Sesc Consolação. Dessa vez, foi lançado o DVD-áudio duplo Boulez+, no qual Cláudio Cruz toca obras modernas e contemporâneas, com destaque para a produção do compositor francês Pierre Boulez. Na apresentação, foram interpretadas Entre o arco e o ar, de Sergio Kafejian, TransScriptio, de Flo Menezes, e Anthème 2, de Boulez.


Após concerto, o violinista Cláudio Cruz recebe os aplausos da plateia e abraça o compositor Flo Menezes

Cláudio é mesmo um artista excepcional. O público em geral o conhece como o spalla que esteve à frente da Osesp por mais de 20 anos, interpretando todo o grande repertório sinfônico. Ele é também reconhecido como solista e camerista, em geral tocando o repertório romântico ou nacionalista da primeira metade do século XX. Mas qual não foi a surpresa de todos ao vê-lo nesta noite, sozinho no palco, interagindo com eletrônica e tocando peças dificílimas – tanto sob o ponto de vista da técnica instrumental quanto da linguagem musical – com segurança, intimidade e um refinamento musical a que poucos intérpretes podem aspirar. Uma noite especial.

 


 

[Veja também]
Fórum Ircam Brasil – Parte 1
Fórum Ircam Brasil – Parte 3

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