Grandes compositores, pessoas “incomuns”. Será?

por João Marcos Coelho 09/07/2009

Tradicionalmente, a história da música é contada por meio de biografias dos grandes compositores. As histórias individuais são sempre exemplos de superação de obstáculos aparentemente intransponíveis – feitos só realizados porque estamos falando de gênios completos, pessoas “incomuns”, para ficarmos numa palavra que está na moda.

O roteiro é quase sempre o seguinte: a criança demonstra desde a mais tenra idade dotes maravilhosos para a música. A família, em geral pobre, faz de tudo para ao menos conseguir alguém que dê aulas para o geninho. Bem, com algumas variantes, a vida dos compositores acaba sendo a de pessoas ultradeterminadas, obstinadas, que passam por cima de tudo para levar ao mundo a sua (dele) música. Pessoas, enfim, “incomuns” (não como certos romancistas nascidos em São Luís do Maranhão, pelo amor de Deus).

Será que as coisas são mesmo assim? Tenho trabalhado, nos últimos meses, na série de biografias “Grandes compositores”, que a Abril Coleções coloca semanalmente nas bancas de jornais e livrarias. Como não desejava repetir este conto de fadas de superação quarenta vezes, pus-me a reler biografias já antigas e principalmente novos estudos e pesquisas.

Pasmem. Hoje nem os grandes compositores podem arrogar-se mais o status de pessoas “incomuns”. Os biógrafos continuam glorificando seus objetos de estudo, mas esmiúçam como cães de caça os defeitos e desvios pessoais, embora não esqueçam de exaltar as qualidades criativas de seus biografados. O resultado é que assistimos a uma espécie de renascimento da biografia musical. Depois de décadas em que a cartilha estruturalista vigente nos meios acadêmicos provocou o surgimento de cerrados estudos técnicos centrados apenas na obra, voltamos a olhar com mais vagar para estas “pessoas incomuns”.

As revelações podem soar como fofocas, mas o fato é que, conhecendo melhor o compositor, sem dúvida teremos portas de entrada mais adequadas para a compreensão de sua obra. Hoje, afinal, dispomos de uma documentação muito mais farta e minuciosa do que no passado. Tchaikovsky, por exemplo. Ele não se suicidou tomando água contaminada e contraindo cólera em 1897 porque teria seduzido um sobrinho; sua homossexualidade, portanto, teria sido a causa da morte. Na verdade, a homossexualidade era oficialmente proibida na Rússia dos czares, mas era perfeitamente tolerada nas altas rodas, onde o compositor circulava. Ele dedicou “Romeu e Julieta”, por exemplo, a um ex-aluno do Conservatório com o qual viajou por anos por toda a Europa. Morreu porque tomou por engano, mesmo, a tal água contaminada.

Vejam só. De um lado escamoteia-se a homossexualidade de Tchaikovsky; de outro, escancara-se a de Franz Schubert. A grande maioria dos estudos acadêmicos e pesquisas dos últimos vinte anos preocupa-se o tempo todo em buscar provas de que ele é gay (procure livros e artigos de autores como Maynard Solomon ou Lawrence Kramer, entre outros). Como escreve Christopher Gibbs na biografia mais recente sobre o compositor, é equivocado chamá-lo de gay – até porque o conceito é contemporâneo e soa distorcido quando aplicado a outro período histórico, no caso as primeiras décadas do século 19. É mais adequado, raciocina o pesquisador, admitir que rolava de tudo nas famosas schubertíadas e provavelmente ele era bissexual. Não sou eu quem diz, mas Gibbs. Agora, a sífilis que o matou aos 31 anos, esta foi mesmo passada por uma prostituta. Schubert gostou da mulher errada: uma  das princesas Esterhazy, para a qual deu aulas por dois verões no mesmo palácio que décadas antes tivera Haydn como empregado. E como era tímido, acabou nos braços das chamadas mulheres de vida fácil.

Outro exemplo que de certo modo me chocou foi Claude Debussy. Sua música refinadíssima, sua figura elegantíssima – tudo nele remete a uma personalidade ‘incomum”. Pois ele pegava dinheiro emprestado e não pagava, mentia e desdizia-se a todo momento. Era, enfim, um cara igualzinho a tantos que conhecemos no nosso prosaico dia-a-dia: encrenqueiro, mentiroso e intratável. Quando foi a Paris pela primeira vez, o compositor húngaro Bela Bartok pediu para ser apresentado ao autor das “Images”. Disseram-lhe: “Você quer mesmo ser insultado?”

Pode ser que estejamos iniciando uma nova era na maneira como encaramos os grandes compositores da história da música. A moda das biografias, que separavam claramente em duas partes vida e obra, já era. Hoje, uma editora de ponta como a da Universidade de Cambridge, por exemplo, banca uma série de biografias curtas, de não mais de duzentas páginas cada uma. Elas são escritas por especialistas em cada compositor. Estes narram sua vida nos mínimos detalhes, entremeando-a com a análise das obras. São livros fascinantes e acessíveis. Vários deles não por acaso já receberam traduções para o espanhol. O de Schubert, assinado por Christophe Gibbs, é formidável, porque justamente transforma uma pessoa “incomum” num ser humano de carne e osso, como a gente. Depois de uma leitura dessas, você ouve Schubert de modo diferente, chega mais perto dele e de sua maravilhosa música. É tudo que um “grande compositor”, de fato uma pessoa incomum, precisa.