Gravação dos Choros: o melhor legado de Neschling

Rei morto, rei posto. Bastou o alto tucanato paulista se livrar de seu boquirroto “kapellmeister”, que o que antes se configurava como um ruidoso cordão de aduladores repentinamente se transfigurou em pelotão de fuzilamento. Os mesmos que passaram 12 anos a proclamar os imorredouros méritos de John Neschling passaram, de uma hora para a outra, a ver “estagnação” no projeto da Osesp, e a louvar irrestritamente a troca de comando. Se, até poucos meses atrás, era preciso coragem para atacar Neschling, uma dose adicional de bravura é necessária, no presente, para defendê-lo.

Esperamos que, um dia, passe o clima de Fla-Flu em torno do regente. Nessa data, talvez seja possível fazer uma avaliação serena do seu legado. E não é impossível que descubramos que, ao lado das mazelas que fomos tanto tempo desencorajados de mencionar, e que hoje se proclamam aos quatro ventos, havia algo de meritório em sua gestão.

Hoje já parece bastante positivo o legado fonográfico de Neschling com a Osesp. A orquestra grava discos. Mais: o faz bem. E mais importante ainda: tem deixado registros de altíssima qualidade do repertório brasileiro.

Só neste mês a Biscoito Fino fez chegar à imprensa o último dos três volumes da integral que a orquestra, regida por Neschling, fez dos Choros de Villa-Lobos. Embora não tenha tido essa intenção, o disco acabou tendo a carga simbólica não apenas de celebração da efeméride dos 50 anos de falecimento do compositor, como ainda de uma espécie de canto do cisne do regente com a orquestra à qual esteve intimamente associado.

E que canto do cisne poderoso! Já havia, por certo, boas gravações de todos os Choros por aí, mas faltava um projeto fonográfico que integrasse todos, com uma visão unificadora, capacidade técnica e solidez musical.

Porque os Choros trazem o Villa-Lobos de maior relevância - aquele que, estimulado pelo ambiente vanguardista que encontrou em Paris, em 1920, produziu suas partituras mais ousadas, modernistas, fauvistas.

Todo o vigor desse músico no auge criativo, determinado a conquistar a capital cultural do planeta, transborda na gravação da Osesp. Particularmente emocionante é a interpretação dos Choros nº 10, que, não custa lembrar, constituem um dos itens mais gloriosos do repertório da sinfônica paulista desde os tempos de Eleazar de Carvalho. Talvez aí resida, ainda, a melhor pista para a nova gestão da Osesp: em vez de fazer “tabula rasa” do legado de Neschling, tomar o que já foi alcançado em termos de excelência como ponto de partida para novos voos de qualidade. E sem que a ambicionada inserção internacional da orquestra implique em perda de ligação com a música de seu país.

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