Hamelin e o pianista de invenção

por Leonardo Martinelli 02/08/2012

O recital que o pianista canadense Marc-André Hamelin realizou no último dia de julho na Sala São Paulo foi uma daquelas raras ocasiões em que a experiência estética proporcionada foi tão impressionante, e de tão alto nível, que fica difícil fazer qualquer tipo de análise e comentário. Talvez por isso mesmo o papo foi bastante enxuto nas diversas rodinhas de pessoas que naturalmente se formam durante o intervalo e após a apresentação. Na maioria das vezes ouviu-se apenas expressões isoladas, como “nossa!”, “incrível”, “fantástico”, ou mesmo monossilábicos de sonoridade exótica, tal como um “woooh” que ouvi se projetar de um grupo de jovens.

 

Em torno deste recital de Hamelin havia uma grande expectativa que veio a se confirmar, isto é, de que seria um dos pontos altos da temporada clássica brasileira deste ano. E me valendo do clichê, Hamelin conseguiu superar todas as já altas expectativas que existiam.

Em sua apresentação na capital paulista o pianista propôs um repertório bastante interessante, e, de certo ponto de vista, ousado. Iniciado pela fundamental Sonata op. 1 de Alban Berg o itinerário musical proposto por Hamelin mostrou-se de uma inteligência e sensibilidade raras, ao seguir com duas peças de Gabriel Fauré (Improviso n° 2, op. 31 e Barcarolle n° 3, op. 42) e concluir a primeira parte com o monumental Rudepoema, de Heitor Villa-Lobos.

Apenas lida a listagem acima parece uma mistura de estilos um tanto improvável. Mas Hamelin sabe muito bem a matéria-prima com a qual trabalha, e muito longe de soar uma colcha de retalhos, o pianista conferiu fluidez e organicidade no conjunto interpretado.

E que interpretação! Soa quase sobrenatural a delicadeza e precisão de seus toques nas passagens rápidas em pianissimo e a espantosa nitidez que extrai do piano nos momentos de maior violência. Com uma interpretação simplesmente arrebatadora de Rudepoema o pianista nos proporciona uma re-percepção ainda mais convincente a grandeza da obra de Villa-Lobos: raros são os virtuoses que, generosos, voltam a colocar na obra, e não em si próprio, o foco da escuta.

Na segunda parte, Hamelin faz um grande tratado prático da interpretação de Serguei Rachmaninov. O famoso compositor pós-romântico russo, que foi também um dos grandes pianistas de seu tempo, ocupa posição de destaque no repertório do instrumento e dos grandes concertistas. Por isto mesmo nada mais estimulante que iniciar esta segunda parte – na qual se tocou dois Prelúdios do op. 32 (n° 5 e n° 12) antes da grandiosa Sonata n° 2, op. 36 – com uma peça própria, as Variações sobre um tema de Paganini.

Este é o nome oficial da peça de Hamelin, que bem poderia intitular-se Comentários e digressões sobre Variações sobre um tema de Paganini. Isto porque ao invés de realizar um exercício de especulação sobre o tema original do célebre violinista e compositor romântico, em sua peça, Hamelin nos sugere um pianista que, na intimidade de seus estudos, se permite relacionar de forma lúdica com a famosa partitura de Rachmaninov antes de iniciar sua execução de forma tradicional. Neste exercício metalingüístico sobre interpretação musical, experimenta-se novos tipos de toques, explora-se virtuosismos naquilo que já é virtuoso por excelência e percebe-se semelhanças e conexões com o grande repertório, quando então emerge citações de Beethoven e Liszt, por exemplo.

Pareceria mais improvável ainda terminar este recital tocando um Radamés Gnattali como bis, ao qual se seguiu outro, com Debussy. De novo, Hamelin tem domínio raro dos elementos que manuseia, e os combina de forma única.

Mais do que um “concertista” ou “recitalista”, Hamelin deixou claro à audiência que é, acima de tudo, um músico criativo, afortunado por uma técnica espantosa e eficientíssima que faz questão de colocá-la em seu devido lugar, isto é, no segundo plano, por meio de um gestual econômico e uma atitude serena no palco. Hamelin, este pianista de invenção, tem a proeza de colocar a escuta musical no proscênio auditivo, proporcionando-nos um encantamento com a matéria musical em si.

Marc-André Hamelin se apresenta com o maestro inglês Richard Armstrong e a Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo nos dias 2, 3 e 4 de agosto na Sala São Paulo. Saiba mais.

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