Karabtchevsky faz a Osesp campeã com Schönberg

Quando um time é campeão, pouco interessa se a cartolagem fez contratações equivocadas, se houve equívocos da arbitragem, se a defesa bateu cabeça ou se outro time exibiu um futebol mais bonito. O título motiva a torcida, eleva a autoestima do grupo, dissipa as tensões e infunde em todos ânimo e confiança para seguir adiante.

Não me parece exagero comparar a recente performance dos Gurre-Lieder, de Schönberg, na Sala São Paulo, a uma final de campeonato. Capitaneados por Isaac Karabtchevsky, orquestra e coros da Osesp – turbinados por instrumentistas do Instituto Bacarelli e pelo Coro de Câmara Franz Liszt, de Weimar – desincumbiram-se galhardamente da tarefa de interpretar a monumental e raramente executada – mesmo nos grandes centros musicais do planeta – cantata do compositor austríaco.

Devo confessar que me encaminhei à Sala São Paulo na última segunda-feira, dia 21, algo ressabiado pelas lembranças do 7 a 1 logístico que fora a megaempreitada coral-sinfônica anterior da Osesp: a Oitava sinfonia de Mahler de 2011, que uma série de barbeiragens amadoras reduziu a um acúmulo de som e fúria, desprovido de significado.

Dessa vez, apesar do título algo infeliz do ciclo de concertos em que a obra foi inserida (“Quem tem medo de Schönberg?”), a mão firme de Karabtchevsky garantiu uma realização sólida, profissional e segura. Aqueles que nos bastidores gostam de acusar o regente de “preguiçoso” deveriam urgentemente reformular seus conceitos: afinal de contas, para celebrar seus 80 anos, ele não fez a escolha segura de realizar a enésima performance da, digamos, Nona sinfonia de Beethoven, optando por se arriscar em uma partitura ambiciosa, longa e difícil. Se, em pleno terceiro milênio, alguém no Brasil ainda tem medo de Schönberg, certamente não é ele...

Nem sempre a final do campeonato é o melhor jogo do certame. A tensão e a adrenalina envolvidas costumam resultar em uma partida algo truncada e com erros. Aqui, se levarmos em conta a complexidade da empreitada a que a Osesp se propôs, os problemas de desacertos e desencontros foram relativamente pequenos e desimportantes. Só se poderia cobrar, talvez, maior homogeneidade dos solistas – um problema crônico nas apresentações da orquestra paulista.

A grande decepção ficou por conta do Valdemar do tenor Robert Dean Smith, cuja performance teve o estilo de um peixe no aquário – engolfado pela maré sonora da orquestração schönberguiana, ele movia a boca constantemente, mas quase não se ouvia o som que dela devia emanar. Também esteve longe de empolgar a Tove da soprano Jennifer Rowley – audível, mas não muito mais do que isso. Na primeira parte da apresentação, as coisas só esquentaram quando a mezzo Christine Rice entoou, com beleza e sentimento, a arrebatadora canção da Pomba do bosque.


O teto móvel elevado deu nova configuração à Sala São Paulo [foto: Natalia Kikuchi/divulgação]

O melhor, realmente, ficou para depois do intervalo, com o senso de estilo do tenor Anthony Dean Griffey (Klaus), a vocalidade robusta do barítono Lester Lynch (Camponês) e a classe e expressividade de Andreas Schmidt (narrador). A entrada dos coros aumentou a sensação de magia, que chegou ao ápice com o jogo de luzes sugerido por Karabtchevsky e convertido em uma espécie de “viral” nas redes sociais, de tão fotografado e compartilhado pelos espectadores de uma apresentação que não me parece exagero qualificar de histórica. Aceitem: com Karabtchevsky, nos Gurre-Lieder, a Osesp foi campeã. Negar isso é mimimi de perdedor.

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