Keith Jarrett: piano fino, público grosso

Pianistas-compositores foram uma coqueluche, mas não uma exclusividade do século XIX. Os Chopins e Liszts de hoje continuam firmes e atuantes, mas migraram para a área do jazz. Caso do norte-americano Keith Jarrett, cujo recital solo na Sala São Paulo, em 6 de abril, foi uma daquelas ocasiões que a gente leva no coração para o resto da vida.

Aos 65 anos, Jarrett pode ser considerado, sem exagero, uma das mais prodigiosas mentes musicais em atividade nos dias de hoje. Como fazia Sviatoslav Richter, ele não anuncia previamente o programa de suas apresentações solo. Só que, no caso de Jarrett, não há anúncio porque não há programa: ele inventa, na hora, as obras que deseja executar.


Keith Jarrett [Foto: divulgação]

Ver um mestre dessa envergadura criando em tempo real é um deleite porque ele possui todos os recursos técnicos para materializar as incríveis ideias que brotam o tempo todo de sua imaginação. Esqueça o contorcionismo e os murmúrios do pianista, e se concentre no som: filtrando, digerindo e reciclando as mais díspares influências musicais, as obras de Jarrett são bastante distintas entre si e, para cada uma delas, o Jarrett-compositor parece evocar um Jarrett-pianista diferente em sua execução, com um repertório aparentemente ilimitado de ataques, timbres e dinâmicas...

Assim, ele pode executar uma toccata assimétrica e dissonante, no estilo de Prokofiev, com um diabólico ostinato na mão esquerda, como pode utilizar o “jeu perlé” de Ravel e Debussy, ou o grande som romântico sustentado de Liszt, ou construir uma polifonia bachiana, cristalina e sem pedais, ou evocar a sonoridade do blues e os ataques para lá de heterodoxos de Thelonious Monk...

Pena, evidentemente, que nem sempre o faça diante de um público preparado para receber suas invenções. E aqui estou falando não de “preparação” estética, musical ou cultural, mas das mais comezinhas noções de civilidade.

A Sala São Paulo estava lotada de gente que havia pago salgados R$ 350 e R$ 400 pelos ingressos. O preço dava direito a muita coisa; não, contudo, a hostilizar o artista que se encontrava sobre o palco.

Conforme a apresentação evoluía, o rosto de Jarrett ia sendo cada vez mais fustigado pelos flashes provenientes da plateia. Depois da última música, um gentil membro da produção se encaminhou até um microfone que estava sobre o palco e, falando um português bem claro e audível, informou ao público que Jarrett voltaria, sim, para receber os aplausos, mas pedia que não mais se tirassem fotos.

O apelo foi delicado e polido, mas caiu em ouvidos moucos. O artista retornou e foi metralhado com uma saraivada de flashes. Em um inglês também audível e compreensível, pediu que as fotos fossem feitas naquele instante. De pé, encostado no instrumento, chegou a fazer poses irônicas para os franco-atiradores fotográficos da plateia. Explicou, pacientemente, que não gostaria de ser fotografado enquanto estivesse tocando. E depois, quando se decidiu a bisar, disse: “bem, todo mundo que fotografou agora pode se retirar da sala, pois vocês já têm as suas fotos!”

A ironia de Jarrett, contudo, era refinada demais para ser compreendida, e os flashes continuaram a iluminar seu rosto durante a execução do bis. Depois de agradecer aos aplausos do público, ele se encaminhou ao microfone do palco e disse: “peço desculpas àqueles que não estão fotografando, mas não vou mais tocar piano hoje”.

Nós, os ranzinzas sem máquina fotográfica, perdemos a ocasião única de ver um pouco mais das incríveis invenções musicais de Jarrett. Em compensação, os felizardos dos flashes tiveram a chance de colecionar instantâneos exclusivos do artista insultado no palco da Sala São Paulo. Não me espantaria descobrir que, a essa altura, os autores desse bullying fotográfico exibem orgulhosamente as provas de sua “façanha” em blogs e redes sociais. Para utilizar uma expressão típica do Facebook: “não curti”.