La Cenerentola e seu belo “lado B”

por Leonardo Martinelli 21/03/2013

Com o aquecimento da cena lírica brasileira nos últimos anos, o público de nossas ainda raras casas de ópera tem se deparado cada vez mais com uma prática que nos bastidores e nos cafezinhos é informalmente chamada de “elenco B”. Ou seja, ao longo dos dias de récitas de uma determinada ópera conta-se com dois elencos vocais. Um é chamado de principal e outro justamente de “B”. Há variações piores, e uma delas é chamar um elenco de “internacional” e outro de “nacional”, que parte do equivocado pressuposto no qual a presença de estrangeiros é garantia de boa atuação cênica, fato que, como podemos testemunhar nos últimos tempos, não é verdade.

Este mês em São Paulo foi dada a largada da temporada lírica brasileira com a produção de La Cenerentola, de Rossini, pelo Teatro São Pedro. Das observações em relação à montagem e à direção cênica e musical faço coro à análise que o colega Irineu Franco Perpetuo publicou dias atrás neste mesmo site [clique aqui para ler]. Porém, para a récita de 19 de março, me preparei especialmente (e propositalmente) para conferir a atuação do dito “elenco B”.


Cena do elenco jovem da ópera La Cenerentola no Theatro São Pedro [foto: divulgação/ Wendell Campos]

Um dos grandes diferenciais desta produção em relação ao grupo escalado para dar uma folga e respiro ao elenco principal é que ele foi montado apenas com jovens talentos do canto lírico nacional, com idade entre 24 e 34 anos. A louvável e importante iniciativa é coerente com os novos rumos tomados pelo Teatro São Pedro, que este ano dá início às atividades de sua Academia de Ópera. Não por acaso, dos setes cantores convidados para atuar nesta produção quatro foram posteriormente admitidos para a primeira turma da academia.

Ontem, após o término de espetáculo, fiquei bastante contente e esperançoso com as vozes que pudemos ouvir. O desempenho mais regular e maduro, tanto em termos vocais como cênicos, ficou por conta da dupla responsável por encarnar as irmãs-megeras de Cinderela, isto é, a soprano Roseane Soares (Clorinda) e a mezzo Debora Dibi (Tisbe). Soube também tirar partido do potencial cômico de sua personagem o barítono Johnny França (Dandini), em si também detentor de um belo timbre. A dupla de baixos integrada por Misael Santos (Alidoro) e Gustavo Lassen (Don Magnífico) também se saíram bem, com altos e baixos compreensíveis. Já em relação ao casal protagonista Josy Santos (Cenerentola) e Cleyton Pulzi (Don Ramiro) notou-se uma curva ascendente em suas respectivas atuações, em especial no que diz respeito à precisão e agilidade das difíceis coloraturas que a partitura reserva. No final das contas Josy Santos soube convencer com a grande e difícil ária de encerramento do segundo ato.


Cena do elenco jovem da ópera La Cenerentola no Theatro São Pedro [foto: divulgação/ Wendell Campos]

Vale a pena ressaltar que a atuação do referido “elenco B” ocorreu sob condições muito diferentes do elenco principal, a quem é reservado total prioridade nos ensaios cênicos e musicais. Ou seja, no final das contas, estes jovens se superam pela incrível capacidade de apreender seus papéis em condições em parte adversas: afinal, é sempre duro e árduo o caminho do jovem artista...

São várias as lições que se tira de uma experiência como esta. Uma delas, é que um elenco jovem pode ter muito a nos dizer e encantar, e daí a importância de se sistematizar este tipo de iniciativa por todo o país. Outra, é que não faltará muito para que muitos desses jovens virem o disco e em breve passem a brilhar com toda justiça no “lado A”. Para isso, só precisamos continuar a investir e acreditar.


Cena do elenco jovem da ópera La Cenerentola no Theatro São Pedro [foto: divulgação/ Wendell Campos]

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