Lebrecht e a nova história da música.

por Leonardo Martinelli 25/06/2008

Qual seria o ponto de partida da música moderna? Qual seria a obra a partir da qual todo um mundo novo em matéria de som e música passou a ser desenvolvido?

Para Paul Griffiths, especialista em música do século XX, trata-se do sereno e sensual solo de flauta do “Prélude à la après-midi d’un faune”, de Claude Debussy. Já para o crítico da conceituada revista The New Yorker, Alex Ross, a música moderna começa com a harmonia extravagante presente já nos primeiros instantes da ópera “Salomé”, de Richard Strauss.
Na verdade, estão todos errados, pois a música moderna começa com uma ária da obtusa ópera “Germania”, do italiano Alberto Franchetti, um compositor cuja música está bem longe de soar moderna. E a“Sagração da Primavera”? E o dodecafonismo? Esqueça tudo isto, pois toda a tradição musical foi colocada de pernas para o ar, cedendo lugar para um novo tipo de marco histórico.

Pode parecer estranho, mas no final das contas é isto o que acaba defendendo o crítico inglês Norman Lebrecht em seu livro “Maestros, Obras-Primas & Loucuras: A Vida Secreta e a Morte Vergonhosa da Indústria da Música Clássica” (Record, 348 págs., R$ 47), recém traduzido no Brasil.

Famoso por sua escrita ácida e pelo sarcasmo com que trata aquilo que não gosta ou reprova, Lebrecht é conhecido do público brasileiro por “O Mito do Maestro”. De certa forma, “Maestros, Obras-Primas...” pode ser entendido como um complemento natural ao seu fundamental livro sobre regentes, mas na verdade ele toca num assunto mais profundo.
Ao traçar um panorama da indústria fonográfica clássica, Lebrecht traz à luz as mudanças das práticas e dos valores pelos quais o universo clássico passou nos últimos cem anos. Esta mudança foi tão radical e profunda que, por esta perspectiva, uma gravação não é apenas um simples registro da música, mas constitui um outro tipo de arte, que tem a música como ponto de partida.

Com a era da música gravada as bases que antes sustentavam a grande música ocidental foram necessariamente modificadas. Neste novo cenário, a “obra” deu lugar ao “álbum” (seja ele um LP, um CD ou um DVD). O compositor foi reduzido a mero provedor de conteúdo, cedendo seu posto de honra aos intérpretes, em especial, ao maestro. O mecenas foi metamorfoseado em produtor executivo, e desta forma, a estética foi substituída pela implacável demanda de mercado. Por sua vez, o público se transformou em consumidor, e a arte em mero entretenimento.

Lebrecht realiza sua história desta “nova arte” baseado em seus anos de experiência como um dos mais notáveis críticos musicais do mundo, tendo sido testemunha ocular (e “auricular”) de muitos dos fatos narrados no livro.

Ao final deste panorama, Lebrecht pode deliciar ou enfurecer seus leitores com sua lista das cem gravações fundamentais e das vinte que jamais deveriam ter sido feitas. Com isto, acaba por estabelecer o primeiro cânone desta nova de arte (que segundo ele, apesar de nova, já está morta). Aqui não basta a presença da “Nona Sinfonia” de Beethoven, mas sobretudo desta famosa obra na antológica gravação que Arturo Toscanini realizou em 1952.

Mas neste cânone, uma “música obra-prima” nem sempre é necessária para fazer um “álbum obra-prima”: para Lebrecht, a música moderna não se inicia com as árias de Alberto Franchetti, mas com elas interpretadas pelo tenor Enrico Caruso, que por um acaso as cantou em primeiro disco, que em termos lebrechtianos, seria uma espécie de “Salomé” ou de um“Prélude...” desta nova história da música.

Serviço:
“Maestros, Obras-Primas & Loucuras: A Vida Secreta e a Morte Vergonhosa da Indústria da Música Clássica”
Record, 348 págs., R$ 47,00.
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