Leonardo Hilsdorf: ouro para o Brasil

Embora, nesse ano, a máquina de mídia da Globo esteja ausente do evento, vai ser inevitável: a partir do mês que vem, todas as atenções da torcida brasileira estarão voltadas para Londres, na esperança de uma inédita medalha de ouro olímpica no futebol.

Gilberto Mendes está aí para provar que não há incompatibilidade essencial entre futebol e música de concerto. Embora por vezes suas acrobacias me pareçam mais adequadas às piscinas de saltos ornamentais que às canchas futebolísticas, considero Neymar digno de respeito e admiração, e creio que, sem ter pela frente o talento superior de Messi, ele reúne todas as condições para voltar do solo inglês como vencedor.

De qualquer forma, os artistas da bola já gozam de carinho dos fãs e exposição na mídia mais do que suficiente. Gostaria de aproveitar esse espaço para chamar a atenção para os jovens craques da nossa tão esquecida música de concerto. Dentre eles, quem andou brilhando recentemente na Europa foi o pianista Leonardo Hilsdorf.


Leonardo Hilsdorf [foto: divulgação]

Por decisão unânime do júri, Hilsdorf acaba de embolsar oito mil euros com o primeiro lugar no 8º Concurso Internacional de Piano Adilia Alieva, em Gaillard, pequena cidade no sul da França, perto da fronteira com a Suíça. Ano passado, ele já havia ganhado o primeiro prêmio, prêmio especial da banca e prêmio de favorito do público no Concurso Pianale Klavierakademie, em Fulda (Alemanha), bem como o segundo lugar no Concurso Internacional de Piano de Séte, no sul da França.

Leo hoje tem 24 anos e mora em Paris. Conheci-o em 2005, aqui em São Paulo, quando ele era um dos brilhantes alunos de Eduardo Monteiro, ganhava todos os concursos que apareciam pela frente e disputava a primeira edição do Prelúdio, o finado concurso de música erudita da TV Cultura. Não me parece exagero afirmar que, de todos os concorrentes que tive a honra de ouvir durante os seis anos de existência do Prelúdio, Hilsdorf me pareceu o mais talentoso, o mais brilhante e o mais promissor.

De lá para cá, muita água rolou. Leo abriu recitais de Nelson Freire em 2007, tocou em várias cidades brasileiras, fez mestrado em performance no New England Conservatory, em Boston (EUA). Teve as normais crises de identidade da juventude contemporânea, mas hoje parece empenhado em transformar em realidade o que há sete anos se afigurava como promessa.

Mas talvez o mais bacana dessa história é que, enquanto no futebol o Brasil é dependente do talento solitário de Neymar, no piano Hilsdorf está muito longe de ser a única esperança. Nomes como Fabio Martino, Felipe Scagliusi, Ronaldo Rolim, Lucas Thomazinho, Cristian Budu, Silvia Molan e Erika Ribeiro (a lista está bem longe de ser completa e tem lacunas importantes) fazem parte dessa legião de craques que honram a tradição herdada de Novaes, Tagliaferro e Freire, entre muitos outros. Tudo isso conquistado na base do talento individual, do esforço pessoal, do sacrifício e do voluntarismo. Já imaginaram o que pode acontecer no dia em que tivermos algum tipo de política pública voltada para a educação, as artes e a música?