Lista de melhores; todos odeiam, mas adoram saborear os resultados

por João Marcos Coelho 16/08/2010

O ser humano tem mania de fazer listas e rankings com os melhores. O vício está no DNA de todo mundo – e a gente precisa até se policiar pra não cair nesta armadilha redutora que distorce as coisas, sobretudo no reino das artes.

 

Mas, por outro lado, nem sempre conseguimos passar batidos por algum tipo de ranking. As dez melhores escolas pelo ENEM, as dez melhores faculdades, o melhor ‘chef’, o melhor carro, etc.,etc.

Assim, mesmo sabendo disso tudo, não resisto e divido com vocês a matéria de capa da revista inglesa BBC Music Magazine deste mês (agosto), que convocou um batalhão de pianistas para escolher os que consideram os três melhores da era das gravações (ou seja, dos últimos 110 anos).

Ao todo, cem grandes pianistas deram seus votos triplos. Os vinte mais votados receberam pequenos perfis da revista. A lista começa com o chileno Claudio Arrau (em 20º) e vem descendo (ou subindo?) para o primeiro lugar, com Joseh Hofmann, Walter Gieseking, Glenn Gould, Murray Perahia, Wilhelm Kempff, Edwin Fischer, Radu Lupu, Ignaz Friedmann, Krystian Zimerman, Arturo Benedetti Michelangeli, Martha Argerich (9º), Emil Gilels, Arthur Schnabel, Dinu Lipatti, Alfred Cortot, Sviatoslav Richter, Vladimir Horowitz, Arthur Rubinstein e, no primeiríssimo posto, Sergei Rachmaninov.


Sergei Rachmaninov [Foto: divulgação / reprodução site answers.com]

A lista, claro, é bastante previsível – e só traz quatro pianistas vivos. O mais interessante está nas votações de cada um, que a revista abre. Aí é que a leitura fica de fato saborosa. Três brasileiros participaram deste colegiado ilustre. Arnaldo Cohen votou em Friedman, Michelangeli e Argerich; e Nelson Freire em Horowitz, Rachmaninov e sua ídola Guiomar Novaes. Nenhuma surpresa. A surpresa é a participação do jovem pianista Felipe Scagliusi como votante (ele escolheu Vladimir Sofronitsky, Arthur Rubinstein e Nelson Freire). Além de Nelson, Guiomar também recebeu um voto do pianista português Artur Pizarro. A brasileirinha recente Maria João Pires não escolhe os óbvios, optando por Richter, Samson François e o romeno Radu Lupu.

Piano sem fronteiras
Foram poucos, mas os votos concedidos a geniais pianistas de jazz demonstram que os muros entre popular e erudito estão mais na cabeça do público do que propriamente na dos músicos. Nelson não escolheu Erroll Garner, mas se pudesse aumentar um pouco sua lista o autor de Misty certamente seria nome de honra. A pianista russa Kirill Gerstein, de 30 anos, incluiu Keith Jarrett em sua lista tríplice. Jarrett foi o primeiro pianista a formatar o recital de música inteiramente improvisada; gravou muita música erudita, propriamente dita (muito Bach, Händel, Mozart e até os Prelúdios op. 87 de Shostakovich). Mas foi escolhido com certeza por seu talento de improvisador sem limites.

É curioso que dois pianistas britânicos jovens tenham votado em jazzistas. Steven Osborne, 39 anos, já gravou Schnittke, Alkan e Nikolai Kasputin (este ainda vivo, representa quem sabe a mais interessante fusão entre formas eruditas e conteúdo jazzístico em suas composições, sempre escritas, jamais improvisadas). Pois ele votou em Keith Jarrett, Bill Evans (uma espécie de “pai” tecladístico de Jarrett, pianista notável) e Alfred Brendel. Jonathan Plowright, 50 anos, lançou este ano, pela Hyperion, o surpreendente CD “Hommage à Chopin” (formidável não só porque inclui o tributo de Villa-Lobos, mas pelo repertório diversificado que traz até o catalão Federico Mompou). Ele votou em Paderewski, Bill Evans e Erroll Garner (olha aí o guru de Nelson de novo). John Tilbury é um veterano pianista britânico militante da vanguarda (é o principal intérprete e parceiro musical do compositor Cornelius Cardew; escreveu uma caudalosa biografia de Cardew, ex-aluno de Stockhausen que virou militante maoísta dos anos 60 em diante). Pois ele corrigiu uma injustiça, votando em Thelonious Monk. Bill Evans, Garner e Jarrett não existiriam sem o autor de Round midnight.

Mas listas, vocês sabem como são, todo mundo diverge. Estranhíssima a ausência de Daniel Barenboim como votante. E eu, particularmente, senti falta de duas pianistas: a húngara Annie Fischer e a brasileira Magda Tagliaferro. A primeira por puro prazer; a segunda, num arroubo patriótico justificável. E detestei o único voto dado a Lang Lang – está certo que foi da pianista de 16 aninhos Lara Ömeroglu, vencedora do prêmio jovem músico do ano da BBC de 2010. Sempre pensei que o chinês superstar só enganasse o público. Pois infelizmente ele também leva no bico músicos jovens. Ainda bem que nenhum brasileiro entrou nessa.