Mais sobre o arrebatador violino de Guarnieri

por Leonardo Martinelli 10/11/2009

Em artigo publicado neste site em maio passado, nosso companheiro de redação Irineu Franco Perpetuo fez uma importante resenha sobre os concertos para violino e orquestra do compositor paulista Mozart Camargo Guarnieri (1907-1993), a propósito de seu lançamento em um excelente box onde estas obras são interpretadas pela Orquestra Sinfônica Municipal de São Paulo, regida por Lutero Rodrigues e com solos de Luiz Felipe [clique aqui para ler]. Pois bem, para quem já se deleitou com a maestria da escrita para violino do mais célebre cidadão de Tietê, não pode deixar de conhecer as sonatas para violino e piano que ele compôs entre os anos de 1931 e 1978, e que serão interpretadas na íntegra nos concertos dominicais promovidos pelo Centro Cultural São Paulo.

A cargo da violinista Tânia Camargo Guarnieri (filha do compositor) e do pianista Renato Figueiredo, domingo passado foram apresentadas as Sonatas nºs 3, 6 e 4 (compostas respectivamente em 1950, 1963 e 1956). Da primeira à última nota de cada uma destas peças Guarnieri confere uma escrita muito vigorosa nos movimentos rápidos (vide, por exemplo, o Decidido da nº 3 e o Allegro appassionato da nº 4) e dramaticamente comovente nos movimentos lentos (Misterioso da nº 6 ou o Íntimo da nº 4). No conjunto, nenhuma das peças ouvidas numa Sala Jardel Filho praticamente lotada é menos que arrebatadora, onde ora se é seduzido pela incrível paleta de cores que Guarnieri extrai do violino, ora pela empolgante simbiose entre os instrumentos.

Camargo Guarnieri [Foto: reprodução]

Claro, nada disto seria perceptível não fosse a excelente atuação do duo Guarnieri-Figueiredo. Ser filha do compositor naturalmente faz com que um recital como este crie uma série de expectativas, e Tânia não deixou por menos, sabendo explorar os diferentes humores que permeiam o conjunto da obra. Somente ao vivo é possível dar conta de todas as nuances que uma intérprete como ela é capaz de extrair do instrumento, dada a grande familiaridade (tocando duas delas de cor) que ela tem com estas obras. Literalmente.

Por sua vez, Renato Figueiredo – pianista que também se dedica de forma intensa ao repertório brasileiro – foi a outra ponta que garantiu o sucesso do primeiro dia desta grande empreitada. Não é tarefa das mais triviais acompanhar um solista em uma peça com o grau de complexidade tal como existente nestas sonatas de Guarnieri, tendo Figueiredo temperado sua interpretação ora com delicados dedilhados, ora com estrondosos golpes no teclado, por sua vez, apetecendo a audiência para ouvi-lo interpretando as peças para piano solo do compositor.

Se as execuções por si só se sustentaram, aos nossos heróicos intérpretes cabe uma medalha de honra ao mérito por terem mantido a concentração independentemente da birra de algumas crianças malcriadas (claro, devidamente acompanhadas de seus omissos pais), fato que, apesar de atrapalhar o concerto, aparentemente não foi suficiente para que a despreparada equipe de indicadores do Centro Cultural São Paulo tomasse alguma providência. Façamos votos para que no próximo concerto o ambiente seja mais generoso aos nossos bravos intérpretes.

Serviço:
Camargo Guarnieri: Integral das Sonatas para Violino e Piano.
Com Tânia Camargo Guarnieri e Renato Figueiredo.
15/11, 11:30, Sala Jardel Filho do Centro Cultural São Paulo (gratuito).
[Clique aqui para mais detalhes do Roteiro Musical.]