Marcello: a grande sátira da ópera

“O virtuose moderno nunca terá solfejado, nem nunca solfejará para não cair no perigo de ter a voz segura, de afinar corretamente ou de cantar no andamento certo etc. Afinal, tais coisas estão fora de moda”.

Esse “conselho” aos cantores faz parte do “Teatro à Moda”, opúsculo satírico de Benedetto Marcello (1686-1739) que chega ao Brasil em muito bem-vinda iniciativa da Editora Unesp, com tradução para o português, apresentação e notas de Ligiana Costa, musicóloga brasiliense de 32 anos com doutorado nas universidades europeias de Tours e Milão, e carreira paralela de cantora de MPB, que redigiu ainda um sucinto e necessário glossário de termos técnicos.


Fac simile
da obra de Benedetto Marcello

Irmão de Alessandro Marcello (1669-1747) – cujo Concerto para oboé em ré menor é tocado de quando em vez –, Benedetto Marcello foi tema de uma ópera homônima do alemão Joachim Raff (1822-1882), atuou como magistrado e teve uma carreira musical de certa importância na Veneza de seu tempo.

Contudo, se as realizações musicais de Marcello são domínio de especialistas, sua grande contribuição literária é a sátira “Il Teatro alla Moda”, publicada anonimamente em 1720, e rapidamente difundida por toda a Europa, no italiano original e traduzido para o alemão e o francês.

Pois a cidade natal de Marcello fora palco de uma mudança decisiva na natureza do espetáculo operístico com a abertura, em 1637, do Teatro San Cassiano: uma manifestação artística que nascera na intimidade dos palácios passava a ter uma estrutura profissional, de espetáculos públicos, com receita de ingressos de bilheteria, em teatros alugados.

As cidades europeias foram tomadas por companhias de ópera italiana, e Veneza parecia ser o epicentro desse terremoto que abalaria todo o continente. Em 1642, já eram sete os teatros públicos da cidade dos canais, número que saltaria para nada menos que 18 até o final do século. Entre 1701 e 1745, esses teatros levaram aos palcos nada menos que 450 óperas diferentes.

Óperas que já se apartavam radicalmente dos ideais de união entre música e texto que haviam marcado o nascimento do gênero. Era preciso vender ingressos, atrair público, encher teatros: a prioridade era ter efeitos cênicos impressionantes e contratar cantores de virtuosismo extremo, que arrastassem seus fãs às casas de espetáculo, astros cujo exibicionismo estava acima de preocupações com a unidade dramática ou mesmo a própria verossimilhança do espetáculo.

Escrito com a forma de “conselhos” a todos os envolvidos na produção operística (incluindo não apenas compositores e libretistas, mas até as mães das cantoras e os gerentes do café do teatro), o livro de Marcello constitui um delicioso documento dessa época de efervescência musical, especialmente o padre Antonio Vivaldi (1678-1741), cujas criações causavam furor nos teatros venezianos da época. “O maestro dirá ainda que compõe coisas de baixo nível e com muitos erros para satisfazer a audiência. Condenará assim o gosto dos ouvintes, que se contentam com o que ouvem, mesmo não sendo boas composições, pois não lhes dão a chance de ouvir o que há de bom”, escreve o autor, em seus conselhos “aos compositores de música”.

Mais adiante, Marcello afirma que o empresário de ópera “não deverá saber nada sobre as coisas relativas ao teatro e não conhecerá música, nem poesia, nem pintura etc”, enquanto as pessoas da sociedade “não entenderão nada de música, nem de poesia, nem de cenas, nem de danças, nem de figurantes, nem de urso etc., mas, mesmo assim, darão seus vereditos sobre as óperas”. Como se vê, “O Teatro à Moda” é uma sátira que não poupa ninguém, de uma atualidade e interesse que transcende os limites do século XVIII italiano.