Maria João, Jackie Kennedy e o direito do público ao aplauso

por João Marcos Coelho 12/04/2010

A grande pianista portuguesa Maria João Pires, agora naturalizada brasileira, pediu que não se aplaudisse ao final de cada obra em seu concerto dedicado a Chopin, na Sala São Paulo no último dia 5. Os aplausos só foram permitidos duas vezes em toda a apresentação, ao final de cada uma das partes, separadas pelo intervalo. Foi uma situação inusitada. Havia três peças na primeira parte: a mais deslumbrante, extrovertida e que exigia aplausos entusiasmadíssimos, até por causa da elevadíssima qualidade de sua interpretação, era a segunda; mas não pôde ser aplaudida. A terceira era a “Lúgubre Gôndola”, que Liszt escreveu pressentindo a morte próxima de Wagner. Ao final, o público ficou dividido: não sabia se abria o bocão num chororô fúnebre pelo cortejo fúnebre que acabara de ouvir, ou se aplaudia retardadamente a interpretação fabulosa da Sonata opus 58.

O fato é que a atitude de Maria João só ressaltou um fato incontestável: o concerto tem uma estrutura muito engessada. Ao público cabe apenas aplaudir – e na hora certa segundo a tradição (a menos que o artista dite novas regras).

Imediatamente me veio à cabeça a transcrição de uma interessantíssima palestra feita em Londres, em março passado, por Alex Ross, o crítico da revista “The New Yorker”. Ross é o autor de “O resto é ruído”, um livro sobre as músicas do século 20 que, lançado aqui pela Companhia das Letras, vendeu alguns milhares de exemplares no Brasil (é incrível, mas é verdade).

Eu não estava lá, claro, mas li pelo site da Royal Philharmonic Orchestra. (Você também pode ler: acesse www.royalphilharmonicsociety.org.uk e faça o download do texto na íntegra. Vale muito a pena.)

A palestra intitula-se inventando e reinventado o concerto clássico. E ele começa citando uma fala hilária do presidente Barack Obama, apresentando um concerto de música clássica num salão da Casa Branca. “Agora”, disse, “se alguns de vocês na plateia são jejunos em música clássica e não sabem direito quando aplaudir, não fiquem nervosos. Obviamente, o presidente Kennedy tinha o mesmo problema. Ele e Jackie promoveram vários concertos aqui, e mais de uma vez começaram a aplaudir na hora errada. Então o cerimonial criou um sistema pelo qual a secretária dava um sinal para os aplausos batendo na porta. Bem, agora, felizmente, tenho Michelle para me dizer quando aplaudir.”

É uma pena que o ritual da música tenha se engessado a este ponto na atualidade. Isso espanta aqueles que ouvem por acaso música clássica, gostam e tentam aproximar-se das salas de concerto, verdadeiros templos construídos para a admissão tacitamente exclusiva somente de seus adoradores. A tribo clássica tem um gosto neurótico em observar regrinhas de comportamento nos concertos. E elas prevêem, em suma, só uma coisa: a total e completa imobilidade e silêncio da plateia. Você só tem direito a aplaudir no final. A ânsia de aplaudir fica tão represada que os mais afoitos ficam disputando, quando ainda paira no ar o halo da música, quem aplaudirá primeiro ou dará o pioneiro berro de “bravo”. Interrompem, assim, estupidamente, esse mágico halo que perdura por alguns segundos em toda a sala e coloca músico e público em estreita, íntima comunhão.

Isso é coisa de pretensos “especialistas”, que adoram fazer um arzinho arrogante de entendidos e te olham com imenso desprezo quando você pisa na bola desses rituais. É uma pena. Poucos deles sabem, por exemplo, que no século 19 – quando este formão do concerto se consolidou –, a plateia participava ruidosamente do que acontecia no palco. Quando atuavam, músicos como Franz Liszt e outros faziam questão de levar a plateia a participar do que acontecia no palco – fosse acompanhando a história, fosse mesmo interferindo (no caso de Liszt). Este sorteava as peças preferidas do público colocadas em papeizinhos em uma urna e improvisava em seguida sobre aqueles temas. Isso é quase um programa de auditório. Ou uma rave, se a faixa etária dos frequentadores é menor.

De todas as manifestações musicais atuais, apenas a ópera ainda conserva um pouco dessa vitalidade. O público não perdoa deslizes dos cantores e cantoras em suas árias preferidas (aqui o problema é outro: a eterna repetição das mesmas árias, mas isso é assunto para outro dia).

Já é hora de ouvirmos sugestões como as de Alex Ross, e atentarmos para os exemplos históricos, a fim de resgatarmos o prazer da música sendo feita no palco com a cumplicidade e participação da plateia. Leia a palestra dele e console-se. Você está em ótima companhia: Kennedy/Jackie, o casal 20 dos anos 60, e Barack Obama, o “cara” dos anos 10 do século XXI, são seus parceiros nessa presumida e absurda ignorância que a tribo erudita adora pregar na sua testa.