Maria João Pires: cidadã sergipana?

Ingressos caríssimos, esgotados e disputados a tapa: as pessoas mais improváveis têm me abordado por telefone, e-mail, SMS e programas de conversa da internet para pedir entradas para o concerto de quinta-feira, quando se celebra o décimo aniversário da Sala São Paulo.

Maior idealizador, entusiasta e defensor da Sala, o maestro John Neschling vai ficar de fora. A festa será comandada por Yan Pascal Tortelier, o regente principal interino, que manobra nos bastidores para se tornar efetivo. Enquanto tenta se cacifar diante de Fabio Mechetti, o candidado da secretaria estadual de Cultura, Tortelier escolheu um programa variado, no qual procura mostrar suas credenciais em música brasileira com as Bachianas Brasileiras nº 5, de Villa-Lobos (com solo de Laura Claycomb), e traz Maria João Pires no Concerto nº 20 para piano em ré menor, K. 466, de Mozart.

Esse é o mesmo concerto que Maria João toca em um deslumbrante DVD da Filarmônica de Berlim, sob a batuta de Pierre Boulez. A TV Cultura, que vai gravar e transmitir a apresentação do dia 9, adoraria transformar também esse concerto histórico em DVD, mas ainda depende da anuência dos artistas e da Fundação Osesp.

Difícil falar em Maria João Pires e não me lembrar do blog de João Luiz Sampaio [clique aqui], no qual fiquei sabendo que, em Portugal, noticia-se que ela vai renunciar à cidadania lusa, para ficar apenas com a brasileira [clique aqui].

O que pudemos apurar é que, radicada em Salvador, na Bahia, desde 2006, a pianista planeja implantar um ambicioso projeto educacional no estado vizinho, Sergipe, a ser anunciado no próximo dia 23, quando ela completa 65 anos de idade.

Como Leonardo Martinelli já noticiou aqui neste site [clique aqui], Sergipe tem desenvolvido uma importante atividade de concertos, em torno da sinfônica local, dirigida por Guilherme Mannis. Mannis teria sido o artífice da aproximação entre Pires e o governo local, que estaria disposto a apoiar um ambicioso programa de educação musical, em bases similares às quais a artista desenvolveu em Portugal – mais especificamente, em Belgais.

Atualmente tocado por Joana Pires, filha da artista, o projeto de Belgais enfrenta crescentes dificuldades financeiras [clique aqui], incluindo arresto de bens decretado pelo Ministério do Trabalho. Com apoio público, mas financiamento privado (para não ficar à mercê das idas e vindas da política), a iniciativa sergipana promete constituir a continuidade do projeto do além-mar, mas adaptado à realidade brasileira. A conferir.