“A menina das nuvens”: ópera infantil de Villa-Lobos

O catálogo de Villa-Lobos é tão gigantesco que mesmo hoje, passado meio século depois de seu falecimento, ainda há muito que descobrir e avaliar. A efeméride dos 50 anos da morte do maior musicista que o Brasil produziu em 500 anos de História oferece uma excelente oportunidade para reflexão sobre ele, e, por aqui, quem parece ter aproveitado melhor a chance foi o Palácio das Artes, em Belo Horizonte.

Com o vácuo operístico que, a pretexto de reformas em suas instalações, o Teatro Municipal de São Paulo e seu co-irmão do Rio de Janeiro produziram nas programações das duas maiores cidades brasileiras, tem cabido ao Palácio a solitária tarefa de encenar títulos operísticos de relevância em 2009. No final de setembro, a casa resolveu encenar A menina das nuvens, de Villa-Lobos.

A ópera é uma das facetas mais negligenciadas de nosso compositor maior. O catálogo do Museu Villa-Lobos lista dez criações para o teatro musical. Contudo, como não há notícia de performance nem traço de partituras da maioria delas, sabe-se com certeza apenas de Izath (1912/14), Yerma (sobre texto homônimo de Garcia Lorca, e com estreia póstuma nos EUA, em 1971), do musical da Broadway Magdalena (1947) e desta A menina das nuvens, estreada no Rio de Janeiro, em 1960, e feita em Nova York, em 1989, em inglês, por iniciativa do pianista Alfred Heller.

Trata-se de uma ópera em três atos, com temática infantil, sobre texto de Lucia Benedetti, contando a história de uma menina que é criada nas nuvens, mas deseja voltar à terra para conhecer sua mãe e, depois de uma série de reviravoltas, acaba se casando com um príncipe.

Ficou todo mundo apreensivo quando soube que, em um ensaio, o barítono Lício Bruno, escalado para fazer o papel do Tempo, havia despencado de sete metros de altura. O cantor teve que sofrer intervenção cirúrgica, mas, felizmente, estava fora de perigo quando o presente texto foi redigido.

Em consequência do acidente, a estreia da ópera foi adiada, de 20 para 22 de setembro. O espetáculo foi dedicado a Bruno, em cujo lugar foi escalado o barítono mineiro José Carlos Leal.

Leal entrou na ópera em cima da hora, e seu personagem foi resolvido de maneira engenhosa. Ele ficava sentado em uma cadeira, no proscênio, vestido de preto, e com a partitura diante de si, enquanto, no palco, quem atuava era um ator.

Dado o clima de fantasia assumidamente não-realista da encenação dirigida por William Pereira, a solução funcionou muito bem. Pereira construiu um mundo infantil a um só tempo simples e estilizado, e soube imprimir dinâmica ao prolixo libreto.

Cena de “A menina das nuvens”, de Heitor Villa-Lobos [Foto: divulgação Palácio das Artes / Paulo Lacerda]

Gabriella Pace revelou-se o grande destaque da noite, com temperamento de protagonista, secundada pelos barítonos Inácio de Nonno e Homero Velho, e pelo surpreendente tenor Flávio Leite. Há que se frisar, contudo, que todo o elenco teve suas vozes generosamente amplificadas pela aparelhagem sonora do Palácio das Artes.

No fosso orquestral, Roberto Duarte, o grande artífice da recuperação desta e de outras partituras de Villa-Lobos, teve trabalho para domar uma Sinfônica de Minas Gerais de escassa qualidade sonora, com solos que se desfaziam a cada compasso.

Duarte compôs ainda um prelúdio de quatro minutos para a obra, a partir da música de Villa-Lobos, e inseriu textos da peça de Benedetti, na tentativa de esclarecer sua trama. Nos dois primeiros atos, a partitura se revelou derivativa, de duração excessiva, com momentos de franca banalidade. O criador que o Brasil aprendeu a reverenciar só se revela no terceiro ato da ópera, em que a orquestração luxuriante e neo-romântica do Villa-Lobos dos anos 1950 se encontra com o melodismo seresteiro dos anos 1930 e com algumas ousadias rítmicas e harmônicas da década de 1920.

Tudo somado, A menina das nuvens talvez não seja o melhor Villa-Lobos, mas vale a pena ser conhecida. Parabéns, Roberto Duarte! Obrigado, Palácio das Artes!