A música clássica, quem diria?, embala até romances pornôs

por João Marcos Coelho 12/03/2013

Não duvidem do poder da música clássica. De uns tempos para cá, a mais recente prova desta qualidade da música de Bach a Shostakovich, de Monteverdi a Philip Glass, vem sendo exposta num gênero surpreendente: o da pornografia elegante, emoldurada com toques sofisticados, para soar como ‘erotismo chic’ (assim mesmo, com ‘c’).

O primeiro sintoma explodiu num dos maiores êxitos editoriais da primeira década do século 21, “Cinquenta tons de cinza”, de  E. L. James, que vendeu mais de 31 milhões de exemplares no mundo inteiro, e uns 300.000 no Brasil. A escritora britânica não apenas usou música clássica convencional, como inovou corajosamente na confecção de suas trilhas sonoras para os acalorados embates sexuais entre Anastasia Steele e Christian Grey. Sabem o que embalou as quentes noitadas? Simplesmente um compositor inglês do século 16 que se dedicou basicamente à música religiosa. Thomas Tallis viveu entre 1505 e 1585. Sua especialidade são os motetos polifônicos. Nada combina menos com sadomasoquismo do que as muitas vozes de seus corais sacros. Klaus Heymann, o capo da Naxos, gravadora que hoje domina quase metade do mercado planetário de música clássica gravada (em CDs físicos, streaming ou download), nunca vendeu tanto Spem in alium quanto nos últimos meses. A expressão em latim quer dizer esperança no outro, o que de certo modo bate com o espírito de “50 tons de cinza”; mas o texto é calcado na Bíblia e cantado por oito vozes em latim. Ou seja, ninguém entende nada – e por isso mesmo, quem sabe, ouve-se naqueles sons somente o que se deseja ouvir. Tá certo que de repente trechos do Tristão e Isolda, entre tantas outras opões, poderiam funcionar melhor, no espírito da “trama”.

Mas vá lá, tudo bem, Thomas Tallis teve o seu público multiplicado por milhões de repente, num passe de mágica. Mas, você e eu sabemos, tudo que se imita acaba sendo uma pálida e medíocre cópia do original.

Não que “50 tons de cinza” valha alguma coisa – merece o cesto de lixo, óbvio. Mas a sua mais recente clonagem acaba de ser lançada no Brasil pela Editora Record. Trata-se de “80 dias – a cor da luxúria”, de Vina Jackson. Na contracapa, a provocação para tentar seduzir leitoras de “50 tons”: “O desejo tem mais tons que apenas o cinza...”

Vina parece ter se encantado com o uso da música clássica por E. L. James. E vai fundo nesta direção. Sua personagem principal é Summer Zahova, que se muda para Londres perseguindo o sonho de se tornar uma grande violinista clássica.

Entre uma e outra batalha na cama com o parceiro, ela dedica-se à música. Só que Vina é, digamos, pouco apetrechada para lidar com a música clássica. Escolheu a mais óbvia das trilhas, As quatro estações, de Antonio Vivaldi. E, claro, o nome da personagem, summer, é retirado de um dos quatro concertos do prete rosso.

Por que perder tempo com uma porcaria dessas? Simples: fuja desse tipo de literatura barata que usa a música clássica como quem acrescenta uma cebola ou pimenta malagueta numa receita culinária.  Música e literatura têm, sim, amplos e maravilhosos pontos de contato. Quer mergulhar nisso?  Comece com “Contraponto”, de Aldous Huxley; continue com “O náufrago”, de Thomas Bernhard; depois volte para o século 19 e se encante com os contos satírico-musicais de E. T. A. Hoffmann, um dublê de crítico musical (foi o primeiro a recensear as sinfonias de Beethoven, por exemplo, na Viena do início do século 19) e novelista de primeira. Você não vai se arrepender.


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