"Música contemporânea brasileira"

por Camila Frésca 23/03/2010

Passou quase desapercebida a reedição, em 2008, de um dos mais importantes livros que se dedicam a recontar a "história" da música brasileira. Trata-se de Música contemporânea brasileira, de José Maria Neves (Rio de Janeiro, Editora Contracapa). Esgotada há tempos, essa obra fundamental de nossa musicologia foi apresentada como tese de doutorado na Sorbonne, em 1976, e editada em livro em 1981.

Além de excelente pesquisador, José Maria Neves (1943-2002) foi regente, professor e compositor. Teve contato com o mundo musical desde a infância, acompanhando os ensaios da Orquestra Ribeiro Bastos, da qual seu pai foi maestro, em sua São João del-Rei natal. O próprio José Maria conduziu esta orquestra de 1977 até sua morte. Tocava violino e violão e era membro de diversas instituições no Brasil e no exterior, bem como professor titular da UniRio. Como pesquisador concentrou-se na música colonial brasileira e na obra de alguns modernistas. Quando faleceu, em 2002, era presidente da Academia Brasileira de Música.

Mais especificamente, como o nome já diz, o livro de José Maria Neves se dedica a tratar da música contemporânea à época em que ele escrevia, ou seja, a da década de 1970. Para isso o autor faz um apanhado histórico dos principais fatos e movimentos musicais ocorridos no País desde o início do século XX, a partir do movimento modernista.

Mas a obra passa longe de uma simples e cansativa enumeração de datas e nomes, embora em vários momentos liste e comente abreviadamente vida e obra de compositores que mais se destacaram em determinada época. Excetuando-se o legado crítico de Mário de Andrade, esta é um das poucas obras que, apesar de sua natureza panorâmica, discute de forma abrangente e concatena de modo crítico os acontecimentos, jogando a um outro patamar a discussão e oferecendo muito mais ao leitor do que livros de referência como os de Renato Almeida (História da música brasileira), Vasco Mariz (História da música no Brasil) e mesmo Bruno Kiefer (História da música brasileira, dos primórdios ao início do século XX).

É curioso pensar que o livro tem sua origem numa tese de doutorado, tanto pela abrangência do tema como pelo modo como ele é desenvolvido. O texto aproxima-se muito mais de um ensaio do que de um trabalho cientifico, no qual a cada afirmação é preciso recorrer a notas de rodapé com indicações de autores e outras discussões sobre o assunto. José Maria Neves trata com propriedade e profundo conhecimento – histórico, musical e social – todo esse século musical que passa em revista.

Outro ponto a ressaltar é a transparência e honestidade do pesquisador. Logo no início do livro ele marca posição, deixando claro que "esse estudo não segue uma linha de fria imparcialidade. Acreditamos profundamente que as linguagens artísticas evoluem pela corajosa superação da herança tradicional e pela audácia na proposição de novos caminhos expressivos." Assim, ele demonstra simpatia pelos criadores mais voltados à experimentação e que não se preocuparam apenas em conservar ou seguir uma tradição. No entanto, mesmo quando se percebe que é este o motivo que o faz criticar determinado compositor, sua visão nunca é simplória, maniqueísta ou destituída de análise dos fatos.

O próprio autor desejava lançar uma segunda edição do seu livro e para isso reunia materiais. Sua morte precoce, no entanto, não o permitiu realizar a empreitada. Esta edição, revista e ampliada por Salomea Gandelman, incorporou ao livro três novos textos: um artigo do próprio José Maria Neves intitulado "Música hoje no Brasil: partindo dos novíssimos", de 1983; um texto de Edino Krieger sobre "20 anos de Bienais" (era desejo do autor incluir um balanço sobre as Bienais de Música Contemporânea do Rio de Janeiro); e uma biografia de José Maria Neves escrita em 2003 por Salomea Gandelman.

É sem dúvida leitura indispensável a todos os interessados em música brasileira. Música contemporânea brasileira, além de conter ideias luminosas, continua atual e instigante.