A música não pode provocar tédio

por João Marcos Coelho 22/07/2015

Num artigo de 1996 em que defendia o então ameaçado Festival de Donaueschingen, um dos mais importantes e tradicionais espaços dedicados à música contemporânea na Alemanha, o compositor Helmut Lachenmann intitulou-o simplesmente A música está morta, parafraseando Nietzsche. Parafraseou também Schönberg, quando este disse (segundo Lachenmann) que “o artista tem o direito de fazer tudo, menos uma coisa: provocar tédio”. Ele adaptou-a para algo como a arte só tem um princípio e dever: desafiar.


Lachenmann estava se insurgindo contra o pós-modernismo que dopa os ouvidos de hoje com um caldeirão de misturas de músicas dos séculos passados – e, por tabela, fecha portas para a música que de fato está se reinventando e construindo o presente e o futuro.


No Brasil, iniciativas como a Camerata Aberta – extinta há poucos meses e que ainda teima em ressuscitar num concerto hoje, quarta-feira, dia 22, na Sala São Paulo, dentro do Festival de Inverno de Campos do Jordão – acabam sufocadas por vagalhões de sons domesticados. Vale lembrar a reflexão do filósofo-pianista-compositor Vladimir Safatle: “A função da música é dar forma ao que somos ainda incapazes de pensar. Ela produz formas de relação e experiência temporais, em larga medida, ainda impensáveis. Creio que é neste sentido que as afirmações de Lachenmann devem ser lidas. Dizer que a música está morta é uma maneira de lembrar que a música não deveria apenas confirmar nossos sonhos e embalar nossas lembranças, mas nos fazer sonhar de outra forma e produzir curto-circuitos em nossos afetos. No entanto, a música que procura tal redimensionamento do campo da experiência tem muita dificuldade em se fazer ouvir em um mundo no qual a colonização das formas de pensar passa, de forma privilegiada, pelo embotamento musical. Somos musicalmente sujeitados por uma música cada vez mais terapêutica”.



Camerata Aberta, que se desligou da Emesp, mas segue atuando de forma independente [foto: divulgação]


Música terapêutica é outro nome para músicas pós-modernas. “Música terapêutica”, define Safatle, titular de Estética do Departamento de Filosofia da USP, “é um tipo de produção musical que visa ser o espaço de reconciliação com nossa identidade, de reconfirmação de nossos ideais e promessas. Por isso, ela é quase uma terapia. Pois, como toda terapia, ela é uma reconstrução das condições anteriores, que devem ser restauradas. Haverá sempre uma profunda dinâmica de restauração em tais músicas, como toda terapia é uma restauração. No entanto, a música que se coloca como redimensionamento do campo da experiência saberá explorar o estranhamento e o sentimento de deslocalização, o que é o avesso de toda terapia. Ela saberá nos levar à forma do que ainda não tem figura em nossas vidas”.


Dá o que pensar. As palavras de Lachenmann e de Safatle são incrivelmente adequadas para justificar a insistência da Camerata Aberta, sua teimosia em continuar em ação – apesar dos ventos em contrário soprando da vida musical institucionalizada.


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