Na abertura da OSB, Yamandu Costa rouba o show

por Nelson Rubens Kunze 25/03/2013

Teatro Municipal lotado e clima de festa: foi assim a abertura da temporada 2013 da Orquestra Sinfônica Brasileira, a OSB, sábado passado, no Rio de Janeiro. Sob regência de seu titular, maestro Roberto Minczuk, o grupo tocou um programa com obras de Ligeti, Paulo Aragão, Respighi e Villa-Lobos. Paulo Aragão? Isso mesmo. Paulo Aragão, nascido em 1976, é um violonista e arranjador carioca, formado pelo UFRJ, com uma forte identificação na área da música instrumental brasileira. Ele é o autor do Concerto Nazareth encomendado pela OSB, uma homenagem a Ernesto Nazareth, cujo sesquicentenário está sendo comemorado este ano. E o grande destaque da noite foi justamente o solista da obra de Aragão, o violonista Yamandu Costa, que mais uma vez demonstrou ser um dos grandes artistas brasileiros da atualidade.

Após o Hino Nacional acompanhado ativamente pela plateia, a OSB iniciou o programa com o Concerto Romanesc, do romeno György Ligeti (1923-2006). A bonita composição surpreende aqueles que conhecem a criação de Ligeti como um dos importantes nomes da música do século XX (é de Ligeti a obra Atmospheres, usada também na famosa trilha sonora do filme “2001, uma odisseia no espaço”). O Concerto Romanesc tem uma escrita tradicional, com esmero timbrístico, e é baseada em temas ciganos e de inspiração folclórica. Foi boa a interpretação da OSB, com belas intervenções solísticas e a orquestra exibindo equilíbrio nos diversos naipes.

Seguiu-se a obra de Aragão com Yamandu Costa ao violão. Impossível ficar indiferente à performance e energia interpretativa desse músico singular. Yamandu faz parte da talentosa família da música instrumental brasileira (Egberto Gismonti, Hermeto Paschoal, Proveta) – um desdobramento, talvez, do que foi tempos atrás o próprio Ernesto Nazareth –, que simplesmente produz música como respira. Sua abordagem é absolutamente espontânea e se afirma por uma musicalidade e técnica arrebatadoras. Sábado, tocando de cor e com uma boa dose de improvisação (especialmente em dois bis solo sensacionais), Yamandu mostrou que também domina parâmetros caros aos “eruditos”, como dinâmicas sensíveis, articulações limpas e grande senso musical.

Mas tudo isso possivelmente não teria concorrido para a minha aprovação se não fosse o assumido crossover de Paulo Aragão. Tenho algumas reservas a essa moda de encomendas a músicos da área popular ou do instrumental brasileiro, que muitas vezes geram obras deslocadas carentes de autenticidade. Não é o caso aqui. Paulo Aragão transita com naturalidade e competência no arranjo orquestral e demonstra criatividade na combinação do violão com a malha sinfônica. A recorrente citação de obras e climas conhecidos, especialmente de Nazareth, aproxima a obra de um grande e original arranjo sinfônico, escrito com maestria para o inspirado violão de Yamandu.

Yamandu Costa, solista do Concerto Nazareth de Paulo Aragão [divulgação]

Após esse turbilhão sonoro, todos demoramos um pouco para voltar a nos concentramos para o segundo tempo do concerto, que começou com as Impressões brasileiras do italiano Ottorino Respighi (1879-1936). Inspiradas por uma visita do compositor ao Brasil, em 1928, são curiosas as impressões de Respighi, passando longe dos chavões de alegria e espontaneidade normalmente associados ao Patropi. A música flui reservada, com sombras e certa melancolia. Talvez também eu ainda estivesse um pouco entorpecido pelo furacão Yamandu Costa e o Concerto Nazareth...

Para terminar a noite, a OSB interpretou a Bachianas Brasileiras nº 7 de Villa-Lobos, composta em 1942. Apesar da condução consciente de Minczuk, que gravou uma elogiada integral das Bachianas com a Osesp, nem sempre a OSB conseguiu atender às exigências da partitura, que, densa e de intensos blocos sonoros, exige homogeneidade sonora e flexibilidade.

A noite foi um sucesso e a orquestra e o maestro foram ovacionados por uma plateia entusiasmada. Teria sido ainda melhor com uma alteração na ordem do programa: a inversão da primeira parte pela segunda seguramente teria atendido melhor a concentração exigida pelas obras mais “eruditas”, reservando para o final a apoteótica performance de Yamandu Costa.

Observação: O Concerto Nazareth com Yamandu Costa e a obra de Ligeti também estão no repertório do concerto que a OSB fará na Sala São Paulo, no próximo dia 15 de maio. A apresentação ainda contará com a Sinfonia nº 4, de Brahms.

[Nelson Rubens Kunze viajou ao Rio de Janeiro e assistiu ao concerto a convite da Fundação OSB.]